Depois de ir a tribunal frente a Patrícia Campos Mello, a justiça brasileira condenou o Presidente em funções Jair Bolsonaro a pagar uma indemnização à jornalista por danos morais. "Ela [repórter] queria um furo. Ela queria dar o furo a qualquer preço contra mim", disse o Presidente do Brasil em entrevista de fevereiro de 2020. Mais de um ano depois, Patrícia Campos Mello conta ao Polígrafo como tudo começou, o que se vive no Brasil atualmente e o que se pode vir a verificar no futuro.

A repórter do jornal "Folha de São Paulo" acompanhou, ao longo dos últimos anos, as eleições na Índia, nos Estados Unidos da América (EUA) e no Brasil, assim como campanhas violentas na Venezuela, Nicarágua ou Hungria. Ainda assim, a necessidade de ter de ser acompanhada por um segurança só chegou depois da publicação das reportagens que envolviam Jair Bolsonaro, fake news e WhatsApp, num momento em que as ameaças começavam a adensar.

O que é que faz uma "máquina do ódio", quem é que a liga e quem pretende atingir?

A "máquina do ódio" é uma engrenagem de comunicação de governos populistas. No caso específico do Governo brasileiro, ela vê a sua origem no chamado "gabinete do ódio", que é um gabinete de assessores do Presidente da República que fazem a estratégia digital do Governo, análises de rede, determinam os temas que devem ser enfatizados, as pessoas que devem ser atacadas (…) Isso, por sua vez, é amplificado pelo próprio Presidente, pelos filhos do Presidente, que também são políticos, e por vários políticos aliados que têm milhões de seguidores nas redes sociais. De novo, isto é amplificado por blogs de extrema-direita, por youtubers de extrema-direita... Sendo, por fim, amplificado por pessoas normais, que são apoiantes do Governo e que ajudam na estratégia. Essa é a beleza e o perigo da comunicação de rede: não se trata de uma coisa centralizada, mas antes uma coisa que une várias camadas.

"Parece que eles se sentem autorizados a ser mais agressivos. E isso é interessante porque mexe com uma parcela da população que se sente liberada para expressar esse machismo, essa misoginia. Parece que é a vingança dos “politicamente incorretos”. Agora eles estão empoderados: se o próprio governante e os seus aliados usam esse tipo de linguagem absolutamente misógina, porque é que os apoiantes não a usariam?"

É comum ouvir a Patrícia dizer que ser mulher ajuda mais do que atrapalha, no exercício de funções. No entanto, no livro dá inúmeros exemplos de mulheres que foram vítimas de danos morais por parte de figuras políticas e do Governo Bolsonaro, em particular. O que é ser mulher e jornalista num Governo avesso às mulheres e à imprensa?

É bastante difícil ser mulher e jornalista num Governo que é especialmente hostil a jornalistas e a jornalistas mulheres. De facto, eu achava, até então, que em várias coberturas que nós fazemos, como coberturas de conflitos em países mais conservadores, ser mulher jornalista é ótimo. Tem milhões de vantagens. Nós conseguimos entrar em casa das pessoas, conseguimos entrevistar mulheres… Coisas que são muito mais difíceis para jornalistas homens. Eu arrisco dizer que as mulheres têm um senso de empatia mais aguçado.

O irónico é que, aqui no Brasil, se você é jornalista e se você é mulher, então você é o alvo. Muito mais do que os nossos colegas homens. Além disso, nós recebemos um tipo de ataque muito específico. Quando se trata de uma mulher, o ataque tem um aspeto misógino: eles não vão dizer: “A sua matéria é uma porcaria”. Se eles dissessem isso, fazia parte do jogo. O leitor é o nosso patrão. Mas o que eles dizem é: “Você é gorda”; “Você é feia”; “Você é velha”; “Você oferece sexo”; “Você só subiu na carreira porque você seduziu alguém”; “O seu marido é ladrão”; “O seu filho é ladrão” (…). E mesmo o grau de agressividade é maior. A determinada altura parece que eles se sentem autorizados a ser mais agressivos. E isso é interessante porque mexe com uma parcela da população que se sente liberada para expressar esse machismo, essa misoginia. Parece que é a vingança dos “politicamente incorretos”. Agora eles estão empoderados: se o próprio governante e os seus aliados usam esse tipo de linguagem absolutamente misógina, porque é que os apoiantes não a usariam?

A animosidade em relação à imprensa não é exclusiva do Governo Bolsonaro. Sente o mesmo no que respeita à relação do Governo com a imprensa feminina?

Outros governos no Brasil, especificamente o Governo do PT [Partido dos Trabalhadores], do PSDB [Partido da Social Democracia Brasileira], obviamente tinham uma animosidade com a imprensa, que é, de resto, uma coisa comum do relacionamento entre governos e jornalistas. O jornalista não está ali para agradar, está ali para investigar e para questionar. Ainda assim, este aspeto misógino eu consideraria que é uma coisa muito mais característica deste atual Governo, além da maior agressividade. Eu compararia ao que acontece, por exemplo, na Índia, onde também existe muito este tipo de ataque direcionado para mulheres. Montagens com fotos pornográficas, memes, esse tipo de coisas... No Brasil, eu nunca tinha passado por um Governo que fizesse uso da misoginia de forma tão aberta.

O Supremo Tribunal condenou o Presidente em funções, Jair Bolsonaro, a pagar-lhe uma indemnização por danos morais, na sequência de comentários machistas. Encara isto como um sinal de que, apesar de tudo, a justiça brasileira continua a funcionar?

Este é, de facto, um sinal de esperança. Foi uma decisão de primeira instância, o que significa que ele [Bolsonaro] pode recorrer ainda. Houve também uma outra decisão, em janeiro, contra o deputado Eduardo Bolsonaro, filho do Presidente Bolsonaro, pelo mesmo motivo: danos morais. Eu acho que isto é um sinal de esperança porque mostra que a justiça não está toda emparelhada. Que há juízes, no caso foi uma juíza, que acreditam que existe um limite para o que pode fazer um governante. Que a imunidade parlamentar não cobre o facto de ele insultar jornalistas mulheres ou qualquer outro tipo de mulher. Nesse sentido, acho que me dá bastante esperança, a mim e a todas as jornalistas mulheres que continuam a ser vítimas deste tipo de ataque. No entanto, esta não deixa de ser uma decisão preliminar e nós sabemos que, noutros aspetos, a justiça é bem menos ágil.

"Eu sei que em Portugal e na Espanha estamos a assistir a um fortalecimento da extrema-direita, o que me leva a crer que estes são movimentos sempre muito pendulares. Talvez voltem. Agora, definitivamente o uso de fake news e de desinformação é uma arma de governos populistas - sejam eles de esquerda ou de direita".

A Patrícia foi repórter de guerra em vários países, como a Síria, o Iraque, a Líbia ou o Afeganistão. No livro, revela que só em São Paulo teve que recorrer a um segurança. Um relatório da Abert mostra que a violência contra os jornalistas creceu 168% em 2020, sendo que quatro em cada cinco ofensas foram feitas por políticos ou ocupantes de cargos públicos, com especial destaque para Jair Bolsonaro. Nesses termos, no que respeita a ameaças e perseguições, como é ser jornalista no Brasil atualmente? 

Quando nós cobrimos conflitos, guerras, nós saímos de casa, onde há uma cama quente, um teto, e vamos para um lugar onde não somos o alvo. O alvo são os civis que estão lá, as pessoas que não têm como sair de lá…então nós tentamos fazer um recorte da situação e voltamos para a nossa cama quentinha.

Aquilo que os jornalistas estão a viver aqui no Brasil é sentirem-se o alvo. As pessoas e os políticos fazem uma pesquisa sobre a tua vida, usam os teus dados pessoais, expõe na Internet, ligam-te, dizem que te vão dar um murro na cara (…). Este tipo de ataque muito personalizado é extremamente comum hoje em dia no Brasil. A qualquer momento há profissionais que têm o seu número de telemóvel exposto nas redes sociais, a receber este tipo de afronta… e é muito difícil lidar com isto. É uma coisa que nós jornalistas não aprendemos na escola. Na escola de jornalismo nós aprendemos a verificar informação, a falar com todos os lados, a olhar para as fontes primárias. Agora nós temos que fazer isso tudo e pensar: “De onde vem o ataque agora? Será que é o próprio Presidente? Qual vai ser a reação? Será que vão conseguir o meu telefone? Será que vão ameaçar o meu filho?”. É uma nova forma de fazer jornalismo, pensar no que estamos a fazer, porque é uma coisa que tem um custo para a vida pessoal.

Qual é o papel das plataformas de fact-checking no atual panorama político brasileiro? O que é que melhorou desde que o jornalismo de fact-checking começou a ganhar forma no Brasil?

As agências de fact-checking são uma coisa preciosa. É termos ali um juiz imparcial que vai verificar as informações e perceber se elas têm por base factos ou não. O problema é que no Brasil, e noutros países, está tudo tão politizado que também se acha que as agências de fact-checking são comunistas, são esquerdistas, mentem… O meu medo é o seguinte: as pessoas que acreditam em desinformação e que são contra a imprensa não são as pessoas que lêem as agências de fact-checking. São bolhas separadas. Também por esse motivo, eu acho que não há uma perspetiva de melhora no que respeita a fake news que envolvem a política.

As pessoas que mais espalham desinformação são os políticos e, em vários lugares, como por exemplo no Facebook, há muita resistência a fazer moderação de figuras políticas. Assim, até determinada altura o Facebook não rotulava como “informação não comprovada” declarações de políticos. Por exemplo, eles tinham muitas verificações sobre a Covid-19… controlavam informações falsas veiculadas sobre a Covid-19. Mas eles não iam fazer isso com os políticos porque achavam que era “newsworthy”, digno de notícia. Desse modo, eu acho que nós temos acesso à verificação, mas é necessário ter também uma coragem política, uma iniciativa política, se estivermos a aplicar essa verificação e esses rótulos a políticos que têm muitos apoiantes. Há um custo político envolvido, e isso nem sempre é feito pelas plataformas.

Num cenário onde não existissem fake news, teríamos o Presidente Jair Bolsonaro eleito em 2018?

Eu não acho que tenham sido só as redes sociais, a desinformação e as fake news as responsáveis pela eleição do Presidente Jair Bolsonaro. A meu ver, existia uma situação no país que era consequência de muitos anos do Governo de um partido - o PT - que se desgastou com escândalos de corrupção. Então, apareceu um candidato que se tornou um símbolo do “antipetismo”.

Agora, isto tudo acabou por se tornar mais fácil porque havia uma estratégia de comunicação baseada em redes sociais. A tal capacidade de ampliar mensagens e de disseminar informação era muito maior, tendo ajudado bastante esse tipo de candidato. Não acho, no entanto, que tenham sido os únicos responsáveis.

Com a regulamentação da propaganda online, pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), vai ser possível eleger Jair Bolsonaro nas eleições de 2022, no caso de o Presidente voltar a concorrer?

As tecnologias vão-se alterando muito. Houve mudanças no Tribunal Eleitoral, que passou a proibir os disparos em massa, e também no próprio WhatsApp, que começou a ir atrás das agências que ofereciam esse tipo de estratégias. Assim, viu-se uma diminuição significativa no número de "disparos", não tendo, no entanto, acabado. A "Folha" fez uma reportagem, no ano passado, sobre as eleições municipais, mostrando que esta técnica ainda é utilizada e que os nossos dados ainda estão a ser usados. Eles utilizam informações minhas, suas, de todo o mundo, do Instagram, do Facebook... Obtêm os nossos contactos, o nosso perfil.

Mas o que eu acho é que as coisas vão evoluindo e, assim sendo, nas eleições de 2022 é possível que tenhamos uma grande narrativa que é a da eleição fraudada - assim como aconteceu nos Estados Unidos, em que o Presidente Donald Trump começou, muitos meses antes das eleições, a dizer que o voto pelo correio ia ser fraudado, que não era seguro. Aqui, já há alguns meses que o Presidente Bolsonaro e os apoiantes estão a alertar para a possibilidade de termos uma eleição fraudada. O objetivo é alterar a maneira de votar. Atualmente nós temos o voto eletrónico e eles querem que passe a ser utilizado o voto impresso. Então, este tipo de coisas, a par com vídeos que estão a ser distribuídos no Telegram - muita gente migrou para o Telegram, devido às restrições atuais do WhatsApp - vão dominar as eleições.

Outra coisa que se está a espalhar, e que pode muito bem estar presente nas eleições de 2022, são as aplicações dos próprios candidatos. Isto foi feito na Índia, por Narendra Modri e vários governadores, e foi feito em 2020 nas eleições dos Estados Unidos - tanto Joe Biden como Donald Trump tinham as suas próprias aplicações. Estas aplicações sugam os dados das pessoas para poderem direcionar mensagens e, na minha opinião, também aqui no Brasil vamos ver adotadas essas soluções.

Há uma conjugação de fatores que nos faz ter que pensar que esta luta contra a desinformação é uma luta ingrata. Primeiro, porque a tecnologia se aperfeiçoa sempre. E, em segundo lugar, porque enquanto nós estamos ali a lutar para verificar a informação e disseminar notícias corretas, as fake news estão a viralizar a uma velocidade muito superior.

© Kiko Ferreti

Este livro, no formato em que é publicado, surge na sequência de um falso testemunho em tribunal, onde a Patrícia é acusada de trocar informação por sexo. O jornal "Folha de São Paulo" publicou provas que contestavam essa informação pouco tempo depois. Este é um exercício importante para podermos responder à seguinte questão: Quem é que ganha no Brasil, neste momento? A verdade ou a mentira?

Eu acho que nós estamos num jogo muito injusto, muito desigual. Naquela ocasião, logo depois da testemunha dizer isso no congresso, eu pensei, além de ficar nervosa: “Eu tenho tudo documentado, eu tenho as gravações, que foram feitas com autorização, eu tenho as mensagens… então, simplesmente nós [Folha de São Paulo] fazemos uma reportagem, divulgando todas as provas, mostrando como é mentira”. E foi o que fizemos. Só que, antes disso, a acusação já tinha corrido o mundo inteiro. Isto porque o filho do Presidente tinha feito um vídeo disseminando a mentira, o outro filho do Presidente, vários políticos, vários youtubers, vários bloggers... Então, no momento em que chegou a público a verdade factual, com as provas, já não adiantava muito porque a mentira tinha-se espalhado muito mais rápido.

A verdade é que a indústria de disseminação de fake news trabalha e age rapidamente. Como é que podemos pôr um travão nesta situação? A solução passa por pôr a verdade a correr mais rápido ou por condicionar a divulgação de fake news?

Eu acho que nós, infelizmente, temos que tentar fazer a verdade correr mais rápido. Fazer com que as notícias verdadeiras e os fact-checks viralizem. Porque colocando um travão nas notícias falsas, quem é que vai ser o árbitro da verdade? Quem é que vai ter o poder enorme de determinar o que está autorizado, o que não está, o que é verdade e o que é mentira? Nós não queremos ter esse tipo de censura, então eu acho que a única solução, atualmente, é arranjar formas de as notícias corretas atingirem um número maior de pessoas. Nem que isso passe por torná-las mais interessantes. Uma das principais características das notícias falsas é que elas despertam emoções fortes, revolta… Então isso, conjuado com o algoritmo, leva a que a notícia tenha muito mais destaque.

Não dá para irmos atrás de cada pessoa que partilha uma notícia falsa, porque essa pessoa não é mais do que um cidadão normal. É necessário chegar a quem está na origem e a organizar isto tudo.

Há dados concretos quanto a movimentos organizados de fake news no Brasil? Consegue detetar-se uma origem?

Isso é uma tarefa muito difícil. Por exemplo, quando o movimento é no WhatsApp, que é criptografado, para conseguirmos rastrear e chegar a quem originou uma mensagem, só através de uma ordem judicial e, mesmo assim, é muito difícil e raras vezes se consegue. Nos outros casos a situação é semelhante. Para se descobrir de onde vem uma corrente de mentiras também é necessário ter uma ordem judicial, são coisas muito difíceis de rastrear.

Mas, por exemplo, em julho do ano passado, o próprio Facebook baniu 72 contas, do Facebook e do Instagram, ligadas a um assessor do presidente Jair Bolsonaro, Tércio Arnaud Tomaz, que se diz que é o líder do tal “gabinete do ódio”, e outros dos assessores parlamentares aliados do Governo, que mantinham contas falsas para disseminar esses ataques. A estratégia passava por fingir que eram contas normais, no Instagram e no Facebook, e distribuir ataques contra o Moro, quando ele tinha saído do Governo, dizendo que ele era traidor, que ele era comunista, etc… assim como incursões contra o Supremo Tribunal Federal. Havia ainda uma outra rede de deputados que estava a ser investigada por uso de verbas para contratar agências que faziam campanhas digitais contra as instituições democráticas.

No fundo, nós sabemos que há políticos muito fortes e que há alguns grupos organizados, sim, mas na realidade isso demanda investigação. É necessário identificar essas pessoas e responsabilizar quem patrocina este tipo de coisas. Não dá para irmos atrás de cada pessoa que partilha uma notícia falsa, porque essa pessoa não é mais do que um cidadão normal. É necessário chegar a quem está na origem e a organizar isto tudo.

Considera que a pandemia possa ter permitido uma ascensão do fenómeno de desinformação no Brasil? 

A pandemia é a situação perfeita para teorias da conspiração. Por exemplo, a "Folha" lançou um artigo, no ano passado, que mostrava que o Brasil é o único país do mundo onde ainda há uma grande circulação de notícias falsas relacionadas com a cloroquina. Nem na França, de onde vem o médico e microbiologista Didier Raoult [reconhecido mundialmente e grande defensor do uso da cloroquina], nem lá… só no Brasil. Cá, há uma quantidade gigantesca de pessoas que acreditam que a cloroquina cura a Covid-19. Porquê? Porque nós temos essa desinformação a ser disseminada frequentemente e, inclusive, a vir diretamente da Presidência. Uma das notícias falsas que mais viralizou no Brasil era a de que estavam a ser enterrados caixões com pedras em vez de pessoas, com o objetivo de fingir que eram vítimas de Covid-19.

Há uma quantidade imensa de desinformação ligada à Covid-19, até hoje. É muito difícil, até porque cá nós tínhamos como política do Ministério da Saúde o uso de cloroquina. Então, de facto, as pessoas acabam por não reconhecer o que está certo e o que está errado.

Voltamos às eleições de 2022. Pode uma eventual disputa entre Lula da Silva e Jair Bolsonaro intensificar as campanhas de fake news e desinformação?

Com certeza. Isto porque estas vão ser umas eleições muito polarizadas. Há, no Brasil, uma parte da população que é extremamente fiel ao ex-Presidente Lula - vamos apontar para uns 30% - que se lembra da valorização do salário mínimo, dos melhores tempos da gestão dele, mais no primeiro mandato. E há outros 30% que são fiéis ao Presidente Jair Bolsonaro e que nem perante a tragédia da pandemia abandonam a crença… são conservadores de raiz. Ora, estas pessoas encaram-se uns aos outros como inimigos. Deixou de ser uma simples opção e tornou-se uma coisa muito agressiva. Assim, este é o campo perfeito para a desinformação, para o ataque anónimo (…).

A Patrícia cobriu as eleições presidenciais de Trump, nos EUA, em 2016. Ou seja, pode dizer-se que viu as fake news serem reconhecidas mundialmente como algo preocupante, um fenómeno a ter em atenção. Acha que vai assistir ao seu desmonorar? Vou utilizar uma pergunta que lhe é familiar e que dá nome ao último parágrafo da "Máquina do ódio": Será que uma pandemia pode salvar o jornalismo?

Eu acho que, de certa maneira, a única coisa positiva que poderíamos tirar desta tragédia que é a pandemia, ou uma das poucas, além da solidariedade das pessoas, é que se passou a valorizar informação de qualidade. Havia tantas fake news, aquilo que se apelida de “infodemia”, que as pessoas começaram a entender porque é que é preciso ter um jornalista que vai até à fonte primária da informação, que verifica se é verdadeira.

Nesse sentido, houve uma revalorização do jornalismo e temos pesquisas que mostram exatamente isso. Por outro lado, eu acho que os movimentos populistas vêm em pêndulos. Nós estamos a ver, por exemplo, nos Estados Unidos, que, embora o "trumpismo" se mantenha uma força gigantesca - afinal, Trump teve 72 milhões de votos nas últimas eleições - há também um backlash contra esse tipo de populismo. Houve um enfraquecimento. Talvez, não se sabe, isso possa acontecer também no Brasil.

Eu sei que em Portugal e na Espanha estamos a assistir a um fortalecimento da extrema-direita, o que me leva a crer que estes são movimentos sempre muito pendulares. Talvez voltem. Agora, definitivamente o uso de fake news e de desinformação é uma arma de governos populistas - sejam eles de esquerda ou de direita.

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