Pedro Nuno Santos disse recentemente que "a geringonça não foi um parêntesis na História da democracia portuguesa". António Costa, na entrevista à RTP, também admitiu a possibilidade de uma réplica dessa solução de Governo. Receia os efeitos que isto possa ter ao nível do "voto útil"?

Todos nós ganhamos, as pessoas que nos ouvem, que nos vêem, que vão ser chamadas a tomar uma decisão nestas eleições legislativas, em pôr as questões concretas em cima da mesa, em vez de discussões etéreas que têm pouco que ver com a realidade. Foi o PS que recusou o aumento do salário mínimo nacional acima dos 705 euros. Ou seja, por este PS continuará a existir, num horizonte temporal relativamente alargado, gente em Portugal que empobrece a trabalhar.

O PS foi o partido que recusou já em 2021 adotar medidas de defesa do SNS que travem a saída brutal de profissionais. Este PS é o mesmo que, há vários anos e agora outra vez, recusou rever a lei do Arrendamento Urbano que tem colocado imensas dificuldades a milhares de famílias no país a poderem ver satisfeito o seu direito à habitação. Este PS é o mesmo que recusou encontrar respostas no domínio da valorização da Escola Pública que garanta que milhares de crianças que hoje não têm professores possam ter esses professores. Este PS foi o PS que recusou, em termos de fiscalidade e de justiça fiscal, chamar os grandes grupos económicos a um contributo maior na hora de pagar impostos, para aliviar a carga que recai sobre os rendimentos do trabalho.

Isto é o PS. o resto podem ser proclamações de um ou outro protagonista. Há uns que se dizem à esquerda, também há os que, ainda recentemente, vêm dizer que isto tanto faz para a esquerda ou para a direita, é preciso olhar para os dois lados, consoante dê mais jeito em cada momento. E até outros que preferiam, se calhar, virar-se mesmo só para a direita.

Nós dissemos em 2015 que, atenção, o PS não mudou a sua natureza, o que mudaram foram as circunstâncias. Ou seja, nós tínhamos umas circunstâncias: a derrota de um Governo de direita, que o PS não reconheceu de imediato. Ao fim de anos de ação de um Governo que foi derrotado nas urnas, o PS, também por não ter uma maioria, foi forçado a determinado tipo de posicionamentos sem que tivesse rompido a sua ligação a aspectos estruturantes da direita.

Prevê que o PS e o PSD possam estabelecer uma ligação para viabilizarem um novo Governo?

Ela nunca se quebrou, sejamos claros.

Ao chumbar o OE2022, o PCP estava ciente desse risco de formação de um "Bloco Central"?

Nós fizemos tudo para que o Orçamento do Estado não fosse chumbado, levámos ao limite o esforço para que o Orçamento do Estado não fosse rejeitado. O PS é que muito cedo se fechou nas suas posições, dando a entender que o que queria era este desfecho.

Pensa que o PS se aproveitou da situação dos partidos à direita, neste momento, para provocar eleições e sair beneficiado?

Deixo esse julgamento para outros e fico-me na constatação de que o PS não quis responder a necessidades que eram óbvias, assim como as soluções.

Mas ainda não respondeu à questão do "voto útil". Acha que poderá ocorrer uma transferência de votos do PCP e do BE para o PS?

Eu acho que aquilo que é importante é que a relação de forças entre o PCP e o PS se altere no sentido de reforçar o PCP e não de reforçar o PS. Porquê? Porque nós conhecemos, um saber de experiência feito que aconteceu em numerosas circunstâncias no passado, e inclusivamente no presente, como é o PS não estar condicionado pela força que o PCP tem. E ter as mãos livres para fazer aquilo que é a sua política.

Ora, se nós conseguimos, quando temos o PS condicionado, uma evolução positiva na vida nacional, conseguimos em 2015 repor direitos e rendimentos que tinham sido roubados, avançar até em muitos aspectos, isso mostra-nos que a solução não é aliviar o PS dos condicionamentos, mas pelo contrário alterar essa relação a favor do PCP.

"Se nós conseguimos, quando temos o PS condicionado, uma evolução positiva na vida nacional, conseguimos em 2015 repor direitos e rendimentos que tinham sido roubados, (…) isso mostra-nos que a solução não é aliviar o PS dos condicionamentos, mas pelo contrário alterar essa relação a favor do PCP".

Apesar de Jerónimo de Sousa já ter colocado de lado a ideia de uma nova geringonça tal como a conhecemos, o PCP admite a hipótese de firmar um acordo com o PS e o BE? Será mais exigente nessas negociações?

Vamos ver, acho que estamos novamente a colocar em cima da mesa discussões etéreas que depois fogem do concreto e da realidade. Temos que definir posições. Um acordo para quê? Este é o momento para definir posições em relação a salários, às políticas de desenvolvimento económico, aos serviços públicos e ao SNS. É na base desses posicionamentos e da relação que resultar das eleições que depois se poderão encontrar ou não soluções.

Essas soluções à esquerda podem ser encontradas sob a pressão de entendimentos à direita envolvendo o Chega?

Nunca faltará a ninguém o acordo do PCP para elevar salários, para defender o SNS, para defender a Educação, o direito à habitação, para revogar a atual lei das rendas, por exemplo, para garantir outra lei do Arrendamento Urbano que equilibre a relação entre inquilinos e senhorios. Nunca faltará o apoio do PCP para promover políticas de habitação públicas que não temos tido nos últimos anos.

Agora, o que é evidente e que é visível foi que, por vontade do PS, essas respostas não apareceram. Portanto, se vamos reforçar o PS ou outros que à direita também não querem essas soluções, sabemos que vai ser difícil concretizá-las. Se inversamente reforçarmos o PCP que se tem batido por essas soluções, certamente que será mais fácil encontrar soluções, inclusivamente no plano do Governo. 

Não terem conseguido reverter todas as alterações às leis laborais do tempo da troika, na sua perspetiva, constitui o maior falhanço da geringonça?

Seria um falhanço de quem recusou essas modificações na lei laboral. É o tipo de questionamento que eu acho que dilui uma realidade. O PCP e o PS tiveram sempre posições diferentes aí, sempre, o PS esteve sempre com a direita em questões laborais. E eu nem me refiro, nem o PCP se tem referido especificamente às alterações trazidas pela troika, porque houve alterações anteriores à troika que pesaram muito negativamente, e que ainda hoje pesam, na vida de milhares de trabalhadores. Foram feitas por Governos do PS. O fim do princípio do tratamento mais favorável, a caducidade da contratação coletiva...

Houve alterações às legislações laborais pré-troika, curiosamente, ou talvez não, por mãos de Governos do PS, que hoje pesam negativamente na vida dos trabalhadores. Como? Desorganização da vida familiar, dificuldades de compatibilização da vida profissional com a vida familiar, prolongamento de horários para lá do que seria admissível, nomeadamente as 40 horas semanais. Bancos de horas que levam a uma desorganização da vida das pessoas. Precariedade, sobretudo nos mais jovens, uma precariedade constante com o alargamento dos períodos experimentais.

Estamos a falar de áreas que pesam negativamente na vida das pessoas, que criam instabilidade. Hoje, volta-se a falar muito de estabilidade, é essa estabilidade que nos preocupa, para as pessoas poderem fazer a sua vida, constituir família, responder às suas necessidades, concretizarem os seus anseios e aspirações. É esta estabilidade que devemos procurar e as soluções governativas devem olhar a esta estabilidade e não a outra.

"O PS esteve sempre com a direita em questões laborais. (…) Houve alterações anteriores à troika que pesaram muito negativamente, e que ainda hoje pesam, na vida de milhares de trabalhadores. Foram feitas por Governos do PS. O fim do princípio do tratamento mais favorável, a caducidade da contratação coletiva…"

O Presidente da República tem sublinhado muito essa necessidade de estabilidade política e tem dado sinais de que exigirá mais garantias e até acordos escritos ao próximo Governo. Considera que nesse âmbito os partidos de direita e centro-direita terão vantagem sobre os partidos de esquerda e centro-esquerda, na medida em que são mais pragmáticos?

Acho, em primeiro lugar, que o que está visível é o compromisso do Presidente da República com uma certa ideia de estabilidade - nomeadamente no plano governativo, que nós já constatámos, novamente um saber de experiência feito - que está associada a uma profunda instabilidade na vida das pessoas. A ideia de que um Governo de maioria absoluta garante uma estabilidade e que isso é necessariamente bom... Não é! Nós tivemos entre 2011 e 2015 uma maioria absoluta, estabilidade governativa que foi responsável pela maior instabilidade que este país conheceu nas últimas décadas.

Mas isso hoje está praticamente fora de hipótese, olhando para a fragmentação do sistema partidário é quase impossível...

A experiência do país, em termos de soluções de Governo, o que mostra é que as maiorias absolutas que muitos associam à dita estabilidade governativa estão associadas a uma profunda instabilidade na vida das pessoas. Inversamente foi possível, por exemplo, com a solução entre 2015 e 2019, que alguns diriam não se ter caracterizado pela estabilidade governativa. A verdade é que garantiu uma estabilidade na vida das pessoas que elas não conheciam há muito tempo.

O que destaca como mais positivo desta experiência da geringonça, as principais conquistas?

Estes anos trouxeram-nos conquistas muito importantes, que o PCP valoriza, tanto mais que são indissociáveis da sua intervenção. A maior parte delas são coisas que o PS não queria, não quis. Por exemplo, quando olhamos para uma medida de um alcance tremendo, hoje que falamos tanto das alterações climáticas, como o passe social intermodal nas áreas metropolitanas, foi uma medida que o PS rejeitou em tempos e que foi levado a aceitar neste contexto.

A questão dos manuais escolares gratuitos. A questão da reposição de direitos que tinham sido retirados pelo Governo anterior, ao nível dos rendimentos, o fim do corte nos salários e nas pensões, a restituição do 13.º e 14.º meses, a restituição dos feriados, a restituição das 35 horas de trabalho que só não se alargaram ao setor privado porque o PS não quis... O fim do pagamento especial por conta nas pequenas e médias empresas, a redução das taxas moderadoras na Saúde, a redução das propinas no Ensino Superior. E muitas outras. São medidas inquestionavelmente positivas. Os aumentos extraordinários de pensões, o PS o que queria era descongelar as pensões, em 2016 foi isso que aconteceu...

Um PS com maioria absoluta não teria concretizado essas medidas?

É o que estou a dizer. Estou a falar de medidas que o PS não quis, algumas delas. E que acabou por viabilizar porque foi forçado a isso. Porque havia uma relação de forças que o levou a aceitar medidas e posições que nem sempre no passado o PS aceitou. Falei na questão do passe social intermodal nas áreas metropolitanas, que era importante estender ao resto do país, o PS ainda não mostrou disponibilidade para isso.

"Quando olhamos para uma medida de um alcance tremendo, hoje que falamos tanto das alterações climáticas, como o passe social intermodal nas áreas metropolitanas, foi uma medida que o PS rejeitou em tempos e que foi levado a aceitar neste contexto".

Perante a iminência de um Governo do PSD integrado ou apoiado pelo Chega, deixarão cair as exigências que fizeram agora ao PS para impedir esse cenário?

Não considero que estejamos na iminência disso. Essa iminência pressupõe que isso é uma possibilidade. Eu não encaro como uma possibilidade. A iminência de algo quer dizer que algo está prestes a acontecer, não creio que esteja prestes a acontecer...

Há sondagens que dão 10% das intenções de voto ao Chega, portanto é uma possibilidade...

O Chega, a direita cresce. O caldo de cultura que permite o crescimento das forças da direita que têm políticas anti-populares, contrárias aos interesses da esmagadora maioria da população… O que lhes permite crescer são situações em que não há resposta às necessidades da população. Em que as pessoas olham à volta e não vêem a sua vida melhorar, nalguns casos até vêem piorar. Portanto, o que pode abrir a porta à direita é essa ausência de respostas. Agora, não creio que se coloque como iminente, nem sequer como provável, um cenário como aquele que foi descrito. E a melhor maneira de o evitarmos é assegurarmos condições de resposta aos problemas das pessoas.

Mas perante essa possibilidade qual seria a reação do PCP? Uma repetição daquele momento de 2015 em que fizeram tudo para que o segundo Governo de Pedro Passos Coelho não perdurasse?

Não só fizemos tudo, mas fizemos o determinante, aquilo que mais ninguém fez. Agora, não é uma situação provável, muito menos que estejamos na iminência de isso acontecer. Mas para não tornarmos isso mais provável do que é hoje, o PCP não vai ficar à espera, parado. Aliás, era o que alguns defenderiam, isto o que era preciso era aprovar um Orçamento qualquer que fosse, não interessa o quê, o importante era viabilizar.

Isso era o quê? Era o caminho para aprofundar o caldo de cultura, não respondendo a problemas concretos nas vidas das pessoas, continuando a degradar serviços públicos, continuando a deixar degradar o SNS, os rendimentos das pessoas, deixando aumentar o custo de vida, como está a aumentar. Isso era criar condições para, daqui um ano, esse cenário que refere ser mais provável do que é hoje… Aí sim, eventualmente, na iminência. Não é isso que se passa hoje.

O que é necessário assegurar são respostas concretas aos problemas das pessoas, políticas que cortem campo ao aproveitamento oportunista, populista, demagógico que a direita faz de alguns desses problemas. Ela que não os resolveria, tal como nunca resolveu no passado, e que só contribuiria para os agravar. Se queremos cortar o passo à direita, sim, a maneira mais eficaz de fazer isso é dar força ao PCP. Aqueles que procuram respostas para os problemas das pessoas e que abrem sempre uma e só uma porta à direita, que é a porta de saída.

Foi o que aconteceu em 2015, quando outros não viam essa porta foi preciso que o PCP a abrisse e que empurrasse para lá os partidos que já se preparavam para governar mais quatro anos e para fazer cortes de 600 milhões de euros nas pensões, para fazer mais cortes nos serviços públicos, para tornar definitivos cortes tinham sido apresentados como temporários nos subsídios de Férias e de Natal, por exemplo. Acho que ainda há memória disto e é também por achar que ainda há memória disto que acho o cenário que referiu improvável.

"O que é necessário assegurar são respostas concretas aos problemas das pessoas, políticas que cortem campo ao aproveitamento oportunista, populista, demagógico que a direita faz de alguns desses problemas. Ela que não os resolveria, tal como nunca resolveu no passado, e que só contribuiria para os agravar. Se queremos cortar o passo à direita, sim, a maneira mais eficaz de fazer isso é dar força ao PCP".

Aconteceu há pouco tempo nos Açores, por exemplo. Há uma solução de Governo PSD/CDS-PP baseada num acordo de incidência parlamentar com o Chega...

Mas nos Açores aquilo que teve, antes disso, foram anos de Governo do PS e apenas do PS em que não se respondeu aos problemas das populações locais. E isso teve um peso no abrir de portas à direita. Mas não foi o PCP que abriu essas portas, foi uma ação governativa do PS que não respondeu aos problemas das pessoas. É notório que ao longo destes anos houve em Portugal um esforço de branqueamento das políticas que foram seguidas entre 2011 e 2015.

Como é que classifica o projeto político do Chega e de André Ventura? Radical, populista, extrema-direita, fascista?

Eu acho que são sucedâneos das forças de direita que tínhamos que elevam determinadas linhas e determinadas políticas. 

Não é um fenómeno diferente?

Não. Repare, quando eu digo que há esse branqueamento e essa tentativa de reabilitação da direita passa também por aí. Tem várias expressões, este fenómeno. Desde logo, o poder económico em Portugal empenhou-se profundamente, nestes últimos anos, nessa reabilitação da política de direita, seja ela protagonizada por partidos de direita ou pelo PS, também já aconteceu várias vezes. Já aconteceu o PS, a partir do Governo, levar a cabo políticas estruturalmente de direita em vários aspectos. Houve um esforço por parte do poder económico de reabilitar essa política de direita. E quando digo do poder económico, incluo os seus prolongamentos mediáticos. 

Pelo que diz, parece que não distingue o Chega do PSD e do CDS-PP... 

Não, eu não disse isso. Há diferenças que existem, como há semelhanças também.

Ao nível das questões identitárias, os ataques a minorias étnicas, aos beneficiários de subsídios sociais, não vê diferenças em relação à direita mais tradicional?

Nós conhecemos neste país, entre 2011 e 2015, altura em que não existia o partido que mencionou, a implementação de políticas profundamente anti-sociais que foram além de uma mera circunstância. Havia ali um objetivo estruturalmente assumido de subverter o regime democrático tal como o conhecemos. Não nos esquecemos dos projetos de revisão constitucional que estavam ali e que agora alguns partidos da direita voltam a acenar.

Jerónimo de Sousa afirmou recentemente em entrevista que o PCP tem perdido influência porque já não existem bairros operários. Como é que o seu partido classifica os milhões de trabalhadores que laboram nos sectores do turismo, hotelaria, restauração, construção civil ou limpezas, com remunerações próximas do salário mínimo?

A classe operária em Portugal modificou-se...

Modificar-se não implica ter deixado de existir...

Modificou-se do ponto de vista das suas qualificações, das áreas em que intervêm, do grau de incorporação de conhecimentos científicos e técnicos que é exigida em determinados tipos de tarefas. Agora, o sentido de classe operária como alguém que intervém diretamente no processo produtivo, alguém que não é detentor de meios de produção, que o que faz é vender a sua força de trabalho, seja manual, seja intelectual, hoje crescentemente... Nesse sentido, a classe operária mantém-se como um destacamento maioritário na classe trabalhadora, entre os trabalhadores.

Independentemente disso, o PCP sempre se afirmou como o partido da classe operária, de todos os trabalhadores. Agora, é um facto que o mundo do trabalho sofreu alterações ao longo destes anos. A própria classe operária sofreu essas alterações. Grandes aglomerados, grandes concentrações de trabalhadores foram desarticuladas, deixaram de existir em alguns casos. Importantes pólos produtivos que o país tinha, com grande prejuízo para o país, foram desarticulados. Isto não teve que ver só com uma evolução determinada por um desenvolvimento científico e tecnológico. Houve uma opção também, deliberada, consciente, de desarticular determinados pólos produtivos do país, perdendo todos nós com isso. O país tornou-se mais dependente, perderam-se oportunidades também do contributo importante que esses pólos davam para o desenvolvimento económico do país. Isso dificulta ou torna diferentes as condições em que nós podemos chegar a esses trabalhadores.

São condições diferentes, não há aglomerados tão grandes. Muitas vezes, se eles estão mais espalhados, mais disseminados, mais entregues a si próprios, não é menos urgente chegar a esses trabalhadores, mas é mais difícil. Nós antes conseguíamos, com grande facilidade, chegar a um número muito grande de trabalhadores. Eles hoje estão espalhados. Algum tipo de realidades mais recentes até tendem a espalhá-los ainda mais no futuro, por isso deixa-os mais desprotegidos, mais entregues à sua sorte, mais sujeitos a determinados tipos de abusos, de arbitrariedades, à exploração também. Mas isso não torna menos necessária a existência e a ação do PCP, pelo contrário, até se torna tão ou mais necessária. Agora isso coloca-nos também dificuldades e desafios do ponto de vista organizativo, das formas que temos para chegar a esses trabalhadores. Quando nós sabemos também que hoje há todo um aparelho mediático e ideológico que não está propriamente nas mãos de forças que defendam os direitos dos trabalhadores e os interesses dos trabalhadores, pelo contrário.

Por exemplo, os trabalhadores precários, um fenómeno crescente na economia e sociedade atuais, não sindicalizados na maior parte das vezes, ou com estruturas sindicais alternativas... O PCP tem dado respostas a esses trabalhadores?

O PCP tem procurado essas respostas e tem tido uma intervenção junto desses trabalhadores, inclusive do ponto de vista da organização desses trabalhadores. Esse é o fator decisivo no combate a determinadas visões que tendem a segmentar os trabalhadores entre si. Isso não lhes dá mais força, retira-lhes força.

Quando nós procuramos segmentar os trabalhadores, quando nós procuramos pautar a organização desses trabalhadores por certos critérios, de um certo exclusivismo, realidades à parte. Quer dizer, isso não fortalece, isso enfraquece o conjunto dos trabalhadores. E o PCP tem procurado, seja do ponto de vista da intervenção junto desses trabalhadores, na sua organização, para a luta por melhores condições de vida e de trabalho, do ponto de vista institucional com a força que temos nas instituições.

Temos procurado intervir para combater a situação de muitos desses trabalhadores que nos transportam, em alguns casos, para o desapiedar das formas de exploração, de realidades como as praças de jorna, o trabalho à peça, a realidade que hoje nós vemos, por exemplo, a coberto das plataformas digitais. São realidades que nos transportam para o desapiedar das formas de exploração. Volto a dizer que tornam não menos, mas pelo contrário, mais necessária a existência de um partido com as características do PCP.

© Polígrafo / Nuria Leon Bernardo

Obteve um bom resultado nas eleições autárquicas em Lisboa. Sente que esse resultado, até em contraciclo com algumas perdas do PCP ao nível nacional, dá-lhe mais força para ser um eventual candidato a líder do PCP no futuro próximo?

Não. O resultado obtido em Lisboa foi um resultado positivo, estou de acordo, mas foi um resultado obtido pela CDU, não foi obtido pelo João Ferreira. Eu era parte de um coletivo e foi um resultado que dependeu de muita coisa, seguramente do trabalho que foi feito ao longo dos últimos anos na cidade, do projeto com que nos apresentámos a eleições, também da campanha eleitoral que conseguimos erguer e em tudo isso eu tenho um contributo que é ínfimo quando olhamos para o coletivo do projeto que foi responsável.

Além disso, não foi só em Lisboa que houve bons resultados, a CDU recuperou maiorias que tinha perdido, reforçou algumas. Houve outros resultados que foram positivos. Quanto às questões que coloca, elas não estão sequer equacionadas. Existe uma solução a esse nível e é uma solução que tem todas as condições para durar.

Vai ser candidato a deputado nas próximas eleições legislativas? 

Não há listas feitas ainda. 

Mas admite essa possibilidade?

É uma questão que não está colocada.

Relativamente à Câmara Municipal de Lisboa, está disposto a negociar com o PSD?

O PCP reconhece na atual configuração do Executivo Municipal as responsabilidades que lhe cabem. Ou seja, nós temos uma situação em Lisboa que é a da ausência de uma maioria. A força que tem a Presidência da Câmara Municipal é só a maior minoria das que existem no Executivo Municipal. Este é um quadro que abre possibilidades de intervenção, que responsabiliza mais os partidos, nós sentimo-nos responsabilizados.

Coloca exigências sobre a nossa intervenção a que não deixaremos de responder. Como? Contribuindo com a nossa iniciativa, com os nossos votos para tudo aquilo que sejam soluções positivas para a cidade e, ao mesmo tempo, usando a força que temos, por enquanto é só de dois vereadores, para travar tudo o que sejam questões negativas.

Que políticas de Carlos Moedas é que o PCP vai tentar travar?

Ficou visível nas últimas eleições aquele que é o projeto da CDU para a cidade, o qual diverge em aspectos importantes daquilo que foi o projeto protagonizado pelo atual presidente da Câmara Municipal. Isso é uma evidência. Nós temos uma ideia do urbanismo, do direito à habitação, no uso do espaço público, nos serviços municipais, temos visões de cidade que são diferentes e, em alguns casos, estão nos antípodas daquilo que é defendido por quem tem a Presidência.

O que iremos fazer é bater-nos, por exemplo, no domínio da habitação, criar soluções de habitação acessível que não foram implementadas nos anos anteriores e que possam ser agora, até aproveitando algumas contradições. Acho que é possível perceber, olhando para o programa da força que foi a mais votada em Lisboa, é um programa que não deixa de ter algumas contradições. Às vezes acontece isto, quem está longe de uma perspetiva de vitória acaba por prometer muita coisa e às vezes o seu contrário.

Há ali muitas contradições que nós não deixaremos de procurar explorar. Nomeadamente, levando tão longe quanto possível as possibilidades de criação de mais habitação a preços acessíveis. Acho que muito cedo iremos verificar se há ou não compromisso do outro lado com a vontade de prosseguir esse caminho de criação de habitação a preços acessíveis, de reforço de serviços públicos importantes para a cidade, como é o caso dos transportes. Questões como as condições de mobilidade na cidade, a qualidade de vida do ambiente urbano, as questões ambientais e o que delas se reflete na qualidade de vida, no bem-estar, na saúde de todos aqueles que aqui vivem e trabalham. Nós não deixaremos de levar, tão longe quanto possível, o espaço que haja para responder a essas questões. Pela nossa intervenção vamos procurar construir essas soluções.

"Olhando para o programa da força que foi a mais votada em Lisboa, é um programa que não deixa de ter algumas contradições. Às vezes acontece isto, quem está longe de uma perspetiva de vitória acaba por prometer muita coisa e às vezes o seu contrário".

Porque é que o PCP tem criticado tanto a comunicação social, ao ponto de a culpabilizar por maus resultados eleitorais?

Eu acho que, quem, com algum rigor, com alguma isenção, com alguma imparcialidade se debruçar sobre o tratamento que é dedicado ao PCP...

Tratamento ao nível de tempo?

Tratamento ao nível de tempo, mas não só. Facilmente perceberá que não se trata de invenções, são antes constatações. Realidades como a da muito reduzida pluralidade no espaço de opinião, de comentário, a concentração...

Mas refere-se à representatividade na opinião/comentário ou mesmo à substância das notícias?

Uma coisa está relacionada com a outra. A própria concentração da propriedade dos meios de comunicação social que hoje são prolongamentos de grupos económicos, prolongamentos mediáticos de poder económico, isso também molda a própria natureza da intervenção de alguns desses órgãos.

Que perspetiva tem sobre o jornalismo dedicado à verificação de factos? Exerce um papel importante na neutralização de vagas de desinformação nas redes sociais?

Acho que nós temos que trabalhar para criar condições para que as massas possam elas próprias também fazer o seu escrutínio. Uma sociedade informada, esclarecida, são as próprias populações, as massas populares que ganham condições de fazer um escrutínio. Acho que há um certo tipo de abordagens que só procuram situar nesse campo do jornalismo de verificação de factos que deixam muito a desejar, do ponto de vista da objetividade dos critérios que são seguidos muitas vezes.

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Eu já vi supostas verificações de factos serem feitas a partir de opinião e, portanto, quer dizer, eu vou selecionar opinião em função daquilo que eu quero verificar como factos mas, no fundo confundi matéria de facto com matéria de opinião. Eu acho que, se alguma coisa esta realidade do jornalismo de verificação de factos tem vindo a demonstrar também é que começamos a precisar de uma verificação dos verificadores.

Então não valoriza...

Não, eu valorizo tudo aquilo que contribua para um escrutínio mais democrático e mais informado da sociedade em geral sobre a ação de diversos poderes: poderes públicos e não só. A nossa própria Constituição da República, em questões importantes, como a liberdade de informação, a liberdade de imprensa, ela própria contém também caminhos que, se fossem percorridos, nos permitiriam ganhar melhores condições para haver este escrutínio público. O qual é dificultado por fenómenos que estão em curso, de concentração de propriedade dos meios de comunicação, de redução do pluralismo nos meios de comunicação.

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