Acaba de receber o prémio de jornalismo El Periódico pelo seu trabalho contra a desinformação. Que significado lhe atribui?

É o reconhecimento ao trabalho de checagem que a equipa da Lupa faz há três anos e que teve o seu ponto mais alto nas eleições brasileiras de 2018. É o reconhecimento à liderança feminina, à inovação latino-americana e à necessidade de combater as notícias falsas de forma incansável.

Quando e por que motivo começou a fazer jornalismo de fact-checking?

Comecei em 2014, à frente do blog "Preto no branco", que fundei dentro do jornal O Globo, no Rio de Janeiro, depois de conhecer o trabalho do argentino Chequeado [n.d.r: um site de fact-checking]. Por 3 meses o blog existiu no jornal e foi o primeiro do país em fact-checking eleitoral. Com o seu fim, pedi a demissão e fundei a Agência Lupa.

Que papel pensa que o fact-checking pode desempenhar no aperfeiçoamento das democracias?

O fact-checking oferece ao cidadão os dados corretos e comprováveis sobre um determinado assunto. Com base nesses dados os cidadãos podem tomar decisões mais acertadas. Das mais simples às mais complexas.

A recente campanha presidencial no Brasil foi fortemente marcada pelo fenómeno das fake news. Como foi fazer o fact-checking nesse período?

Foi cansativo e desafiador. A Lupa tem 15 pessoas em sua equipa e checou mais de 850 frases ditas por 64 políticos. Checámos ao vivo todos os debates presidenciais e todos do governo de São Paulo. Também acompanhámos os do Rio de Janeiro e do Distrito Federal. Só no último fim-de-semana, integrámos uma iniciativa de debunking que detectou 50 fake news em 48h...

Qual foi a maior mentira que verificou durante a campanha?

Maior é um conceito amplo... mas mereceram atenção especial duas fotos falsas que circularam no dia do atentado a Bolsonaro. Uma situando o agressor ao lado de Lula e outra colocando a vítima sorridente dentro do hospital, como se nada tivesse ocorrido. Foram dois falsos grandes que surgiram quase que simultaneamente disputando narrativas.

O fact-checking oferece ao cidadão os dados corretos e comprováveis sobre um determinado assunto. Com base nesses dados os cidadãos podem tomar decisões mais acertadas. Das mais simples às mais complexas."

Concorda com os que dizem que a desinformação é um fenómeno especialmente associado a grupos organizados
de extrema direita?

Não concordo. Também vi muita desinformação em grupos de extrema esquerda. Lembro que não há ferramenta capaz de monitorar o WhatsApp. Logo não é possível fazer essa medição.

Cristina tardaguila

Cristina Tardáguila é uma das jornalistas mais influentes da comunidade internacional de fact-checkers

Depois de Trump se tornar o primeiro Presidente-Twitter, Jair Bolsonaro é o primeiro Presidente WhatsApp?

(risos) Ainda está sob investigação a acusação de uso indevido do WhatsApp por parte da campanha de Bolsonaro. Ainda é preciso aguardar. Por enquanto ele segue à risca a cartilha de Trump, oficializando ministros pelo Twitter. Também gosta de fazer lives pelo Facebook. A imprensa brasileira precisará ser esperta para não ficar refém disso.

Qual foi o papel do WhatsApp na campanha presidencial brasileira? 

O WhatsApp foi o canal para onde escoaram as notícias falsas, já que o Facebook havia adotado o projeto de verificação de notícias no Brasil. O WhatsApp tem em si o paradoxo de ser encriptografado e de também permitir viralização.

Por enquanto ele [Bolsonaro] segue à risca a cartilha de Trump, oficializando ministros pelo Twitter. Também gosta de fazer lives pelo Facebook. A imprensa brasileira precisará ser esperta para não ficar refém disso."

Sem a sua estratégia de distribuição de desinformação via WhatsApp Jair Bolsonaro seria Presidente?

Não está confirmada a distribuição de campanha por WhatsApp por Bolsonaro, ok? E acho arriscado dizer que o voto foi decido pelo WhatsApp. O voto é composto por vários fatores. Neste ano, entrou mais um. Se ele foi preponderante ou não, ainda é cedo para dizer.

Que papel julga que a Inteligência Artificial poderá desempenhar no combate à desinformação?

A Inteligência Artificial jamais substituirá cérebro do checador mas pode otimizar processos na checagem: coleta de frases, associação de bancos de dados, distribuição de resultados etc...