Bom dia, como tem passado desde a moção de censura?

Muito bem. Fui ao cinema ontem à noite [na quarta-feira], que é uma coisa que faço raramente. Fui ver o [filme] do Clint Eastwood, Correio de Droga.

Gostou?

Gostei. Eu sou uma apaixonada pelo Gran Torino, este está muitos pontos abaixo, mas gostei.

A história é engraçada: um velhinho que decide dedicar-se ao tráfico de droga.

A forma como começa e depois como acaba... Vale a pena.

Ainda tem tempo para ir ao cinema?

Depois de uma moção de censura há uma noite para descansar (risos).

Sobre a moção de censura: se nós encarássemos o debate de ontem como um jogo de futebol, ou como uma primeira parte de um jogo de futebol, qual seria o resultado?

Eu acho que seria, para ser completamente honesta, um bom empate. Penso que nós marcámos o nosso ponto, acho que o Governo marcou o ponto deles, acho que as esquerdas também marcaram o ponto delas, que é o de estarem todas unidas, e para nós era importante essa clarificação. Portanto, agora temos a segunda parte do jogo para jogar, que é daqui até às eleições.

Eu estava a perguntar sobre o seu confronto com o PSD, não era com o PS.

A moção de censura não teve a ver com o PSD, teve a ver com o PS. Essa é uma leitura que muita gente faz. Parece que as pessoas começam a achar que pode haver aqui uma disputa da liderança do espaço político de centro-direita e, nessa perspetiva, eu acho que de facto ontem o CDS esteve muitos pontos à frente. Mostrámos um CDS muito forte, muito ativo, muito determinado, com muita vontade de liderar a direita e isso ontem [a entrevista realizou-se na quinta-feira, um dia depois do debate] aconteceu claramente no Parlamento.

Para nós era também importante perceber como é que o PCP e o BE se posicionavam. Já percebemos que, a partir de agora, ou apresentam uma moção de censura própria ou serão sempre co-responsáveis por tudo o que se passar nesta governação.

FOTO: GONÇALO ROSA DA SILVA

Neste jogo da disputa da liderança da oposição e do centro-direita, Rui Rio está a deixá-la ganhar por falta de comparência?

Eu olho muito pouco para aquilo que está ao lado, olho muito em frente. E aquilo que está à minha frente é o PS, são as esquerdas unidas e é um socialismo que eu quero combater em Portugal. O que nós ambicionamos é um dia poder liderar o Governo para podermos ser responsáveis por todas as nossas políticas.

Já pensou que António Costa, ao fazer de si a sua principal interlocutora em termos políticos, quer na realidade desvalorizar Rui Rio enquanto adversário?

Esse ponto não me interessa.

Estar permanentemente no centro da atualidade é apenas mérito seu ou é também estratégia de António Costa para menorizar Rui Rio?

Cada um tem a sua estratégia e obviamente a de António Costa é ele que tem de a comentar, que tem que de infirmar ou confirmar o que está a dizer. O que eu lhe posso dizer é que para o CDS é muito importante trabalhar para termos uma alternativa de centro-direita em Portugal. Isso acontece com 116 deputados. No CDS, queremos contribuir o mais possível para os elegermos e para um dia podermos ter a maior fatia desses 116 deputados. Se isso condiz ou não com a estratégia de outros partidos, enfim, os outros saberão e dirão.

Voltando atrás: acredita que o episódio em que António Costa a acusou de racismo no Parlamento pode ter sido deliberadamente pensado para, uma vez mais criar, um facto político consigo e apagar o PSD do mapa da discussão pública?

Não quero ser injusta, mas não tenho dúvidas de que foi deliberado. Com que objetivo, isso só o próprio é que poderá dizer. Mas atendendo à pergunta normal, que outros já tinham feito, e ao contexto tranquilo em que o debate estava a decorrer até então, eu acho que foi deliberado, ensaiado e pensado. Não tenho a ingenuidade de pensar que foi uma coisa que apareceu ali de repente.

Como é que pensa crescer? A quem é que pensa roubar votos? Ao Governo, às esquerdas ou a Rui Rio?

Eu planeio crescer com muito trabalho. Não conheço outro caminho. O trabalho diário na rua, de grande proximidade. Nós lançámos em novembro de 2017 um movimento a que chamámos “Ouvir Portugal”. Foi um movimento enorme que passou por 18 distritos do país – vamos em breve aos Açores e à Madeira -, onde se ouviu independentes sobre os mais variados temas, com painéis de quatro, cinco, seis, sete pessoas. Ouvimos Portugal na rua quando andámos a distribuir muitos papéis a pedir para nos enviarem ideias. Isto começou há mais de um ano e meio. Ao mesmo tempo trabalhamos intensamente no nosso gabinete de estudos, que todos os meses, às vezes mais do que uma vez por mês, tem conferências e tem propostas para nos propor para entregarmos no Parlamento. Confesso que não estou preocupada com a área política de onde virão os votos. Todos os que vêm são válidos. Temos aqui obviamente um grande espaço de conquista que não retira nada ninguém que é o da abstenção. E todos os partidos dizem o mesmo: essa é a grande chave que nós todos tentamos encontrar para chegar a mais pessoas.

Acredita que o episódio em que António Costa a acusou de racismo no Parlamento pode ter sido deliberadamente pensado para, uma vez mais, criar um facto político consigo e apagar o PSD do mapa da discussão pública? Não quero ser injusta, mas não tenho dúvidas de que foi deliberado. Com que objetivo, isso só o próprio é que poderá dizer.

A acreditar nas sondagens, Rui Rio é um líder fragilizado neste momento. O CDS tem ou não uma oportunidade histórica para cavalgar no eleitorado do PSD?

Acho que podemos ambicionar ter um grande resultado. Acredito nisso, nós estamos a trabalhar para liderar o espaço político de centro-direita em Portugal. Se quiser, para refundar a direita. Se é à conta da abstenção, dos mais jovens, dos mais velhos que estão cansados dos outros partidos, se é com pessoas que nunca votaram em lado nenhum e agora votam em nós como eu muitas vezes ouço, ou com aqueles que toda a vida votaram noutros e que pela primeira vez vão votar em nós, confesso que todos os votos são muitíssimo bem-vindos. O que é importante para nós é mostrarmos que temos uma mensagem clara. As pessoas sabem que um voto no CDS não vai parar às mãos de António Costa, e eu acho que este nosso discurso é absolutamente diferenciador. Nós não temos um plano B, se o António Costa precisar do CDS para não ter o PCP e o Bloco, nunca o faremos.

"Agora já não há o problema dos eleitores serem enganados, toda a gente sabe que não estamos a votar para primeiro-ministro, estamos a votar para termos um Governo que nascerá de uma maioria parlamentar. Aquilo que aconteceu ao PSD e ao CDS em 2015, em 2019 pode acontecer ao PS."

Está completamente fora de questão?

Está completamente fora de questão.

E para o PSD, acha que não é um cenário fora de questão?

Não acho, tenho a certeza. Rui Rio já o disse várias vezes, publicamente, quando era candidato à liderança do PSD e depois disso.

Entretanto Rui Rio já evoluiu no discurso...

Ainda há pouco tempo o disse. Ele diz sempre a mesma coisa: diz que não é por dá cá aquela palha, obviamente, mas por razões “suficientemente fortes e ponderosas” para o país poderá apoiar António Costa, poderá apoiar um Governo do PS. Enfim, também não sei em que moldes, isso depois será obviamente com eles.

FOTO: GONÇALO ROSA DA SILVA

Imagine que nas próximas eleições o PS ganha mas que o PSD e o CDS, juntos, têm uma maioria no Parlamento. O que faria nesta situação sem ser incoerente com o que já disse sobre o processo de constituição do Governo atual?

A posição do CDS é muito clara e disse-o logo em 2016: mudou a nossa prática constitucional. O que aconteceu em 2015 foi absolutamente inesperado e muitas pessoas foram enganadas e levadas ao engano. E nós desde logo dissemos que o que aconteceu à esquerda, um dia pode acontecer à direita. Agora já não há o problema dos eleitores serem enganados, toda a gente sabe que não estamos a votar para primeiro-ministro, estamos a votar para termos um Governo que nascerá de uma maioria parlamentar. Aquilo que aconteceu ao PSD e ao CDS em 2015, em 2019 pode acontecer ao PS.

Algumas pessoas consideraram, na sequência do seu ótimo resultado nas autárquicas em Lisboa, que esse score eleitoral podia ser transponível para eleições nacionais. Estamos perante uma convicção ou uma ilusão?

Eu ouvi muita gente dizer que o resultado não era transponível para eleições nacionais. Os comentários, as pessoas, analistas, etc., o que disseram foi: isto foi um episódio isolado.

Estou a falar de pessoas do CDS.

As pessoas do CDS ficaram surpreendidas com o resultado e ainda estão a ajustar-se e a pensar se isto de facto pode ser uma tendência.

Há pessoas do CDS que na altura afirmaram claramente que era possível transpor este resultado para um plano nacional. Podem é ter mudado entretanto de opinião.

Eu acho que é possível trabalharmos para isso. Sou a primeira a dizer isso. Sei da dificuldade, sei que eleições autárquicas são eleições autárquicas, que o contexto de Lisboa também foi um contexto muito específico. Mas se eu acho que podemos crescer para um dia liderar o Governo, é evidente que acho que o que aconteceu em Lisboa pode não ter sido um acontecimento isolado e pode ter sido o início de uma tendência.

Assunção Cristas
FOTO: GONÇALO ROSA DA SILVA

Quais são os seus mínimos olímpicos para as legislativas?

Os mínimos olímpicos, se quiser, é superar o que temos neste momento, que são 18 deputados. Mas não temos nenhum número na cabeça, o que queremos é crescer tudo o que pudermos para nos afirmarmos e para podermos um dia liderar o espaço político de centro-direita em Portugal.

O aparecimento de novos partidos, como o Aliança, de Pedro Santana Lopes, pode ser um risco para os seus desejos de expansão?

Não vejo as coisas assim, pela simples razão de que os tais 116 deputados de que falávamos há pouco podem provir de dois partidos ou de três ou até de mais. E, nesse sentido, o que é importante é perceber se há partidos que pensam com grau de convergência suficiente para poderem construir um programa conjunto de Governo e governarem juntos. Portanto, não vejo isso como um risco. Aliás, entre PSD, CDS e Aliança, só para referir o partido que sinalizou, há certamente mais convergência do que entre PS, PCP e Bloco de Esquerda.

Já percebi que aceitaria de bom grado integrar um Governo com Santana Lopes. O que lhe pergunto é se aceitaria também integrar um Executivo com André Ventura, uma pessoa que está a aparecer à direita do CDS e do Aliança.

Nós revemo-nos numa direita democrática. Ainda não percebi o que é esse partido, que ainda nem percebi se já existe ou não existe ou se ainda é um projeto de partido, mas confesso que não sei se há o tal grau de convergência necessário para isso. E também não sei se tem expressão para isso. No que depender do CSD não terá, porque nós trabalharemos para que as pessoas sintam que não é preciso irem para partidos de extremos não democráticos, porque há ambição, arrojo, rasgo, vontade de fazer melhor e diferente pelo país no espaço da direita democrática, que é o espaço do CDS.

Seguramente que se recorda do segundo Governo de António Guterres, quando o PS conseguiu 115 deputados, tendo ficado a um da maioria. Aceitaria que André Ventura, elegendo um deputado – o que, segundo algumas sondagens, é uma possibilidade – fosse o seu deputado-limiano como Daniel Campelo foi o de Guterres?

Eu trabalho para o CDS poder ajudar o mais possível a chegar aos 116 deputados. Isso passa por afirmar um discurso político de centro-direita, passa por rejeitar extremismos – e eu lembro que o CDS rompeu uma coligação com o PSD em Loures por causa dos extremismos de André Ventura.

Santana Lopes acaba de anunciar que os membros do Aliança terão de entregar o seu registo criminal por uma questão de transparência. Estaria disponível para fazer o mesmo no CDS?

Eu não vejo grande utilidade nisso porque qualquer pessoa que se apresente como candidato a deputado tem obviamente que ter um passado limpo que fale por si, tem de ter  qualidade profissional e, se quiser, um currículo de vida que justifique que seja candidato a deputado.  Não me passa pela cabeça que seja de outra forma.

A realidade tem provado que às vezes não é bem assim.

Não vejo isso no CDS.

Não acha que é um passo que pode ser interessante no sentido de aprofundar a transparência na política?

Eu imagino que nos partidos muito grandes, em que há muitas pessoas que vêm de muitos lados e porventura não há um controlo total das pessoas que são escolhidas, isso seja relevante. Se calhar o Dr. Santana Lopes ainda tem na cabeça um partido muito grande. No caso do CDS, nós conhecemo-nos bem e sabemos muito bem quem é que escolhemos. Não creio que tenhamos o risco de ter pessoas ao nosso lado que não cumpram requisitos éticos. Eu não sei se o Dr. Santana Lopes pode dizer isso sobre todos os que estão à sua volta.

Sobre a governação e sobre o Governo de António Costa, desde que o PS assumiu o poder o desemprego desceu bastante, o défice atingiu mínimos históricos, o país está a crescer acima da média da União Europeia…

...deixe-me só dizer uma coisa: há sempre várias maneiras de olhar para os números. O Dr. António Costa ontem respondeu isso depois de o nosso deputado João Almeida ter apontado a lista de todos os países que crescem mais do que Portugal. Neste momento há poucos que crescem menos do que Portugal. Se nós olharmos para as economias da dimensão portuguesa, todas elas crescem bastante mais do que nós. Entre os países que tiveram ajustamento, por exemplo, a Irlanda está a crescer 5%. O que eu lamento é que o primeiro-ministro de Portugal goste de olhar para números que se calhar o confortam mas que não retratam aquilo que é a pequenez e o poucochinho – para utilizar uma expressão de que ele gosta – que o nosso país está a crescer, tendo em conta as necessidades que tem.

É um facto que há muito que Portugal não cresce dois anos consecutivos acima da média comunitária. É algo que António Costa pode apresentar e que os outros partidos, nomeadamente o PSD e o CDS, que estiveram no Governo, não podem.

É um facto inegável. Mas quando nós comparamos com os outros países com os quais nos devemos comparar percebemos que é muito pouco. Repare: quando o Governo de que eu fiz parte governou, tínhamos uma depressão a nível mundial, tínhamos Espanha, com quem temos fortíssimas relações económicas, com uma recessão de 3,5%. Este Governo usufruiu de uma política monetária do Banco Central Europeu que impulsionou a economia europeia e que não existia no tempo do Governo de que fiz parte. Tendo em conta este contexto, temos que fazer muito mais e melhor. Eu costumo dizer que o país cresce, mas não é por causa do Governo  - é apesar do Governo. Há um mérito do Governo que eu reconheço: António Costa conseguiu manter com alguma estabilidade durante quatro anos. Quanto a tudo o resto, não ajudou as empresas, não ajudou as exportações, não ajudou a ter sequer o mínimo de estabilidade fiscal. Pelo contrário: agravou a fiscalidade quer para as empresas, quer para as pessoas. A conversa de que baixou impostos e devolveu rendimentos é muito bonita, mas quando percebemos que temos neste momento a carga fiscal máxima de que há memória constatamos que isto é ilusionismo. É por isso que quando o primeiro-ministro vem com grande orgulho exibir números económicos, eu só olho para ele e penso: ‘que tristeza, porque isto é ,de facto, muito poucochinho para o que devíamos estar a fazer'.

Não lhe parece que está a ser redutora nessa avaliação? Os resultados obtidos na redução do défice, por exemplo, tiveram um efeito que é inequívoco: credibilizaram-nos perante os mercados internacionais, e isso foi algo que vocês nunca previram. O que vocês disseram na sequência do anúncio da coligação das esquerdas foi: ‘agora é que acabou, o défice vai subir, a desconfiança dos mercados vai rebentar’, etc. Está a acontecer exatamente o inverso.

Eu acho alguma graça quando se vem dizer que este Governo foi o campeão do défice. O anterior passou o défice de 11% para 3% em quatro anos. Este Governo passou de 3 para meio. Até dou de barato que é zero. Reduziu 3 pontos percentuais.

A questão é que vocês disseram que ia passar outra vez para 11. A trajetória de redução manteve-se e vocês não estavam à espera disso. Isso não a surpreendeu?

Eu já vou explicar. Primeiro: uns reduziram de 11 para 3, outros reduziram de 3 para meio. Qual foi o maior esforço? Parece-me evidente. Segundo: uns reduziram com o país, a Europa e o mundo em recessão, outros reduziram em crescimento. Esforço muito menor. Terceira coisa: como é feito este milagre? Não há milagre nenhum. Há um orçamento do Estado aprovado que não é executado. Este governo diz: “Mas vocês faziam retificativos”...

... e é verdade.

Sim, mas o que é que Mário Centeno faz? A ilusão total das cativações. Ele diz que vai fazer uma coisa e não faz. O Governo vende uma coisa quando aprova o orçamento e enganam tudo e todos, como de resto se vê com a contestação que está nas ruas.

Não é a única maneira de ter estes resultados de défice?

Eu rejeito em absoluto esta falta de transparência, esta opacidade dos orçamentos.

O que faria de diferente, como é que atingiria um resultado equivalente?

Ontem António Costa acusava-nos – e acusava-me enquanto fazendo parte do anterior Governo – de que nós não devolvíamos o IRS e os salários à função pública como eles devolveram. É verdade. Nós não teríamos feito isso como eles fizeram. Não teríamos dado tudo à Função Pública num ano ou dois como eles fizeram, não teríamos devolvido tudo do IRS como eles fizeram, mas ao mesmo tempo não teríamos aumentado o imposto sobre o gasóleo e gasolina, não teríamos baixado o IVA da restauração, teríamos mantido uma trajetória de baixa do IRC e isso impulsionaria mais crescimento económico, estimularia mais investimento e mais crescimento económico. De facto a nossa receita não é a mesma que a deles. Não há nenhum milagre de Mário Centeno, não há nenhum milagre deste Governo. Há uma receita aplicada que não corresponde ao que foi anunciado. Portanto, quando António costa diz ‘eu estou a fazer o que prometi’, não, não está! Por isso é que eu digo há muito tempo que só há dois ministros neste Governo: há o primeiro-ministro, que é o da propaganda, e há o ministro das Finanças, que é o da austeridade.

Cederia a todas as reivindicações dos enfermeiros?

Eu nem sequer lhe consigo responder a essa pergunta porque nós não temos dados suficientes para responder. Não temos em relação aos enfermeiros, não temos em relação aos professores, apesar de pedirmos, sem que o Governo os dê. Nós nunca teríamos criado a expetativa que este Governo criou quando disse acabou a austeridade. Segundo, não cortaríamos os canais de diálogo como este Governo está a cortar.

FOTO: GONÇALO ROSA DA SILVA

Parece-lhe razoável repor todos os anos de serviço que Mário Nogueira e os professores reclamam?

No CDS não temos essa informação e, por isso, não podemos, com realismo, seriedade e responsabilidade, dizer ‘eu faria isto ou aquilo’. Posso dizer que por princípio teríamos de nos sentar à mesa com um leque suficientemente alargado de questões para criar soluções. Agora, como o Governo tem feito – simulacro de negociações, não falar, chamar, desmarcar, não ter nada para propor – não me parece que seja sério.

Concorda com quem diz que o instrumento da greve está a ser utilizado de forma abusiva, nomeadamente por parte dos enfermeiros?

Todos os instrumentos têm limites e a lei tem de ser cumprida. O CDS sempre o disse e muitas vezes apelou à sensatez de quem estava a fazer reivindicações, olhando para o impacto que gerava. Dito isto, julgo que quem tem a obrigação de garantir a paz social e de ter processos negociais bem sucedidos é o Governo. Porque é o Governo que tem a informação e que tem a possibilidade de decidir. E este está a falhar imensamente nessa área. O cansaço das pessoas, ao sentirem que são permanentemente enganadas, leva a um extremar de posições. Repare: são professores, enfermeiros, juízes, polícias, guardas prisionais, inspetores da Polícia Judiciária. Já reparou que toda a gente diz a mesma coisa? Se fosse falar com todos como eu falo, o que é que todos dizem? "O Governo é arrogante, o Governo não conversa, não negoceia, o Governo finge…"

Aceitaria fazer parte de um Governo em que estivesse o seu marido, um filho seu, como acontece neste governo?

Não. Acho que não faz sentido.

Acha que alguém deveria sair deste Governo? Ou que não deveria ter entrado?

Penso que não faz sentido ter um Governo que pode ser uma reunião de família, um almoço de sábado ou de domingo, mas cada um fará as suas escolhas e eu não quero ser injusta em relação a nenhum dos protagonistas. O que acho é que é um bocadinho estranho. Não é muito próprio das democracias ocidentais em que Portugal se insere.

Nas eleições europeias, qual é o vosso objetivo eleitoral?

Nós temos um objetivo mínimo – e também não me parece que poderia ser outro – que é dobrar a representação que temos. Temos um eurodeputado e queremos ter dois, no mínimo. Dito isto, devemos ambicionar ter todos os que podermos ter e por isso é que constituímos uma lista suficientemente diversa e capaz.

Mas o que mais a preocupa na Europa atual?

Preocupa-me a própria manutenção e existência da Europa enquanto tal. Enquanto projeto de paz, de espaço de prosperidade e de crescimento económico, espaço de democracias respeitadoras dos direitos fundamentais. Isso são os básicos que nós às vezes damos por adquiridos e que achamos que já não vale a pena falar deles, mas que é preciso reafirmar todos os dias. E depois há outras coisas que para Portugal são muito importantes: a união bancária, a união energética, a agenda do Atlântico, do mar, etc..

Beneficiou ou não Luís Montez no processo de venda do Pavilhão Atlântico? Não, de todo. Houve um processo concorrencial, com três candidaturas, uma delas melhor do que as outras, e foi essa que venceu. Dá-se o caso de ter sido o Luís Montez. Podia ter sido outra pessoa qualquer. O processo foi claro, transparente, cristalino, escrutinado.

Preocupa-a o surgimento dos movimentos populistas que colocam em causa a existência da Europa tal como a conhecemos?

Preocupa muito. Como é evidente. Por isso o grande ponto na Europa é conseguirmos daqui a 10 ou 20 ou 30 anos continuar a dizer que a União Europeia é um projeto de paz, de crescimento económico, de defesa e de concretização diária de valores fundamentais.

Beneficiou ou não Luís Montez no processo de venda do Pavilhão Atlântico?

Não, de todo. Houve um processo concorrencial, com três candidaturas, uma delas melhor do que as outras, e foi essa que venceu. Dá-se o caso de ter sido o Luís Montez. Podia ter sido outra pessoa qualquer. O processo foi claro, transparente, cristalino, escrutinado. De resto, depois de a decisão ter sido tomada, o candidato internacional elogiou o processo pela sua transparência e competitividade. Outro achou que havia ali uma questão de concorrência que se colocava e recorreu para a Autoridade da Concorrência. O processo esteve mais um ano na Autoridade da Concorrência e no fim esta concluiu que não havia problema nenhum. Toda a documentação está na Direção-Geral do Tesouro. Naquilo que teve a ver com a intervenção do Governo, não houve nenhum tipo de benefício ou o que quer que seja. Os critérios eram claros: ficaria com o Pavilhão Atlântico quem oferecesse o melhor preço e assim foi.

É amiga de Luís Montez?

Não sou amiga de Luís Montez.

Conhece-o?

Conheço porque ele frequenta a mesma praia que eu.

Conheceu-o na praia?

Sim. Eu já conhecia o sogro de Luís Montez [Aníbal Cavaco Silva], enfim, em virtude do espaço político, e conheci Luís Montez na praia.

Alguma vez falaram sobre o negócio da venda do Pavilhão Atlântico?

Nunca.

Sabia que o processo estava a ser investigado pelo Ministério Público?

Soube noutro dia porque a TVI me telefonou a colocar várias questões.

Já foi contatada pelo Ministério Público para prestar declarações?

Não.

Está à espera que isso aconteça?

Se for caso disso, certamente que sim, sobre aquilo que tem a ver com a minha intervenção e a intervenção do Governo. O processo foi conduzido pela Parque Expo, que era a dona do pavilhão, e estava na tutela dupla das Finanças e do então MAMAOT (Ministério da Agricultura, Mar e Ordenamento do Território). A intervenção do Governo é clara, está documentada, pode ser consultada por todos e eu certamente que poderei dar uma ajuda naquilo que for a minha memória dessa intervenção. Não tenho problema absolutamente nenhum, pelo contrário. Sei bem o que fizemos.

FOTO: GONÇALO ROSA DA SILVA

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