Tem exatamente a mesma idade que o Bloco de Esquerda, 22 anos. Porque é que escolheu este partido? 

Entrei no BE há relativamente pouco tempo, há mais ou menos três anos, mas apesar de só ter entrado no BE nessa data eu já participava numa série de atividades onde se convivia com militantes que já eram do BE. E eu era a única ativista apartidária, digamos assim. Mas na construção de marchas, marchas feministas, marchas LGBT, pelo ambiente, tudo isso, conseguia conhecer essas pessoas e percebi que me revia, da mesma forma que elas se reviam, nos ideais do BE. Refleti durante um tempo sobre se era mesmo isso que eu queria ou se preferia ficar na zona apartidária e, assim que me juntei, percebi que foi a decisão certa. Consigo fazer muito mais mudanças no BE do que fora.

Além do BE, considerou alguma vez filiar-se noutro partido?

Não. Em portugal, a estar num partido, seria sem dúvida no BE. Na altura em que me inscrevi também só existia, à esquerda, o PS, o PCP, "Os Verdes"... Mas mesmo assim, com este avanço e com estas novas políticas, continuo a dizer que o único partido onde me sentia verdadeiramente incluída seria no BE.

Candidata-se este ano à Assembleia Municipal de Vila Nova de Famalicão. Se for eleita, o que poderá trazer de novo para os jovens e para o debate político na cidade?

Penso que ser jovem vai ser uma mais-valia, caso consiga ser eleita, porque o que há de melhor do que ser jovem para transmitir os problemas que os jovens enfrentam, não é? Ainda ontem eu estava a dizer que a habitação, a precariedade, as questões ambientais, os transportes públicos, tudo isso passa pela nossa geração. As gerações que são mais velhas do que nós fazem o seu contributo, mas já não sentem na pele as características da evolução que a nossa sociedade tem tomado e, portanto, eu penso que, como jovem, posso trazer também alguma inspiração para outros jovens que se queiram inserir na política, quem sabe. É sempre bom politizar jovens.

"A habitação, a precariedade, as questões ambientais, os transportes públicos, tudo isso passa pela nossa geração".

E há espaço na política para os jovens? No seu caso, em específico: mulher e jovem. A atividade política é um "espaço seguro" para essas pessoas?

Quanto aos jovens, sim, sem dúvida. Primeiro, acho que dizer que os jovens não são politizados é um erro. Eu vejo cada vez mais pessoas da minha idade, mais novas do que eu até, envolvidas na política. Inclusive, como eu estava a dizer no início da entrevista, nas marchas. São pessoas que saem à rua, que querem ver os seus direitos defendidos, independentemente do tema ou do setor de que estejamos a falar. E, sendo assim, acho que é um erro dizer que não há espaço para os jovens, porque há e muito. Cada vez há mais.

"As mulheres têm um pensamento mais conservador, mais maternal..."
"As mulheres têm um pensamento mais conservador, mais maternal..."
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E no que respeita às mulheres, especificamente?

Penso que, um pouco por todo o lado e um pouco por todos os setores, as mulheres continuam a sofrer das marcas do sexismo e de uma variedade de discriminações. O setor político não será uma excepção. Por outro lado, penso que a atividade política é um meio - e um meio positivo - para atingirmos a igualdade que queremos alcançar. E é por isso que me alegra ver tantas jovens, mulheres como eu, a interessar-se por política e a querer integrar-se no mundo político, de forma a defender os direitos que são delas. Porque no fundo tudo é política. E a política pode ser um meio onde podemos começar a mudar questões estruturais da nossa sociedade e onde podemos contribuir para a afirmação das mulheres enquanto pessoas que podem e devem participar ativamente no movimento de mudança do país. Ou do mundo.

No mundo político deve combater-se o discurso de ódio que nos é dirigido através de políticas públicas contra o sexismo e qualquer discriminação contra a mulher, não esquecendo as mulheres negras e as mulheres trans, que se vêem ainda mais afetadas neste sentido. Podemos encontrar na política um caminho para que as mulheres possam ter uma voz ativa em assuntos que, muitas vezes, só elas é que têm a capacidade - ou até mesmo a experiência - para poder opinar sobre.

"Deve combater-se o discurso de ódio que nos é dirigido através de políticas públicas contra o sexismo e qualquer discriminação contra a mulher, não esquecendo as mulheres negras e as mulheres trans, que se vêem ainda mais afetadas neste sentido".
catarina ferraz
Fotos: Simão Costa

Isso dependerá também dos partidos e da sua abertura à entrada de jovens. Acha que há partidos ainda muito fechados e envelhecidos?

Falo apenas pelo partido onde me insiro. Não estou nem nunca estive inserida noutro partido e, portanto, não sei dizer como é que os jovens se integram ou não se integram lá. Enquanto bloquista, sei que tenho um lugar no BE que me representa enquanto jovem, como terão outras pessoas que estão à minha volta.

"As mulheres não têm tanto interesse, ou até apetência, para desempenhar cargos políticos"
"As mulheres não têm tanto interesse, ou até apetência, para desempenhar cargos políticos"
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Temos visto que o Bloco de Esquerda (BE) não consegue impor-se ao nível autárquico. Nas eleições deste ano vê algum candidato com capacidade para conseguir esse feito quase inédito?

Acho errada a ideia de que o BE não se impõe ao nível autárquico. Afinal, a conquista de presidências de Câmaras Municipais por todo o país não pode ser o único fator para o qual olhamos. Com os nossos resultados de anos anteriores conseguimos fazer a diferença na maioria dos distritos ou concelhos onde conseguimos eleger.

Especificamente no que diz respeito à distribuição gratuita dos manuais escolares, medida adotada em Lisboa e que depois se estendeu por todo o país. Ou na questão da atribuição da tarifa social automática da água por vários concelhos que foi uma luta intrinsecamente bloquista. Ou relativamente às inúmeras marchas realizadas no Interior, apoiadas pelo BE, Interior esse que é visto como um aglomerado de lugares presos, mas que lutam de forma igual pelos direitos de todas e de todos. E uma série de outras medidas que têm vindo a fazer a diferença para toda a comunidade portuguesa e que foram pensadas pelos programas do BE por todo o país.

No que eu acredito para o futuro é que com o nosso programa, com a nossa dedicação e com a nossa honestidade e vontade de mudar a vida das pessoas para melhor, seja possível reforçar o nosso peso em termos autárquicos. E mesmo que isso não aconteça, lutaremos da mesma forma.

"A conquista de presidências de Câmaras Municipais por todo o país não pode ser o único fator para o qual olhamos".

O BE tem-se batido pela legalização da canábis. Sendo verdade que o consumo diminuiu desde a descriminalização, é um facto também que o número de mortes por overdose tem aumentado. As propostas do BE têm em atenção estes dados?

Sim, ao nível da canábis, primeiro é preciso ter em conta que estamos a falar de drogas leves e, mesmo assim, é preciso ter cuidado e é por aí mesmo que a legalização tem que passar. É importante legalizar a canábis no sentido em que é preciso regular os componentes que estão inseridos na canábis, porque nos mercados clandestinos não vamos ter acesso a isso... É preciso rever a concentração das substâncias que podem estar lá em termos de sabores, aromas que possam causar adição, que muitas vezes depois têm fins como referiu.

Adulterantes também que podem causar adição e, portanto, é necessário regular o produto em si e também é preciso garantir que quem compra a canábis está informado sobre o que está a consumir, a comprar. E que quem vende saiba explicar. É importante também que todas as lojas que acabem por vender, caso se legalize, sejam lojas específicas, com licenças específicas e, inclusive como diz na proposta do BE, que se encontrem longe das escolas para também não incentivar tanto à compra.

catarina ferraz

Noutra causa fraturante, o BE tem manifestado a intenção de legalizar a prostituição e reconhecer os "trabalhadores do sexo". O que tem impedido que isso avance?

A prostituição é um tema complexo até dentro da própria esquerda. É um facto, o BE tem feito isso e eu penso que o que na prostituição tem que acontecer, acima de tudo, é ouvir as trabalhadoras do sexo, quem se insere nessa comunidade. E digo "trabalhadoras" porque na sua maioria são mulheres, não querendo excluir pessoas trans nem homens gays, que também se inserem, mas na sua maioria estamos a falar de mulheres. Penso que a prostituição entra também por este caminho, pela questão do género, pela questão da classe, pela questão da etnia, as questões culturais. Tudo isso está envolvido neste tema.

De forma a que isto possa avançar, é preciso ouvirmos quem está na comunidade. Eu acho que quem quer sair, porque existem pessoas que querem sair, tem que ter todos os apoios sociais e tem que ter todas as condições sociais para poder sair. Mas existe quem queira ficar. E o que é que fazemos às pessoas que querem ficar? Esta discussão tem que ser aberta e temos que saber discutir em que moldes é que essa discussão é aberta. Eu penso que os apoios sociais às trabalhadoras é o fundamental e ouvir quem quer ser ouvido.

"Não faço ideia daquilo que gostaria de ser.  Sou o que a vida me proporciona ser"
"Não faço ideia daquilo que gostaria de ser. Sou o que a vida me proporciona ser"
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E o ponto de partida é, portanto, oferecer condições dignas a todas essas pessoas para que elas possam escolher se querem ou não ficar?

Era o que eu estava a dizer. A discussão tem que passar por que moldes é que essas condições sociais vão ser dadas. Porque essa ideia de que as trabalhadoras não querem sair devido às condições sociais que as rodeiam, quem sou eu para dizer se sim ou se não, não é? Lá está, temos que as ouvir.  Aqui a solução é ouvir as trabalhadoras e eu penso que criminalizar não seja solução, penso que inserir a palavra "patrão" ou "patroa" não seja de todo a solução. Acho que ouvir as pessoas que estão inseridas nesse meio é a solução ou, pelo menos, um ponto de partida.

Abolir poderia ou não ser uma solução?

Penso que não. Penso que isso teria que ser acompanhado por outros avanços que, infelizmente, ainda não atingimos.

Mas o BE reconhecerá que outras tentativas de legalização, nomeadamente na Europa, não foram muito bem sucedidas... Para funcionar em Portugal qual é que seria o caminho?

Se não funcionou noutros sítios e se em Portugal continua a não funcionar, estando no estado em que está neste momento, então porque não chegarmos às pessoas que estão inseridas na prostituição e ouvi-las? Eu acho que passa muito por aí, porque por muito que não funcione noutros países, e por falhas que haja em projetos, os projetos vão sempre também diferir...

E o BE já ouviu essas pessoas?

Sendo militante, nunca ingressei numa conversa. Quer dizer, por acaso tenho contactos com movimentos de trabalhadoras do sexo e, do que eu oiço, não posso falar enquanto BE, posso falar enquanto militante, penso que existem pessoas querem sair e existem pessoas que querem ficar.

Consegue recomendar-me um livro?

Simone de Beauvoir, "O Segundo Sexo". Além da vertente feminista da autora em si, este livro fala-nos da raiz das desigualdades que a mulher tinha - e tem - de enfrentar, numa altura que não existia diálogo suficiente sobre o assunto. E apesar da época em que foi escrito, continua a ser extremamente atual e relevante.

"O combate às alterações climáticas deve ser uma urgente prioridade política"

Se, de entre os seis jovens políticos entrevistados pelo Polígrafo, Catarina Ferraz pode ser a que menos memórias guarda da crise financeira de 2008-09 e do período de resgate da "troika", as respostas políticas a dar no futuro são já pensadas tendo em conta o cenário pandémico: mais investimento no Serviço Nacional de Saúde, especial atenção no combate à saúde mental e combate às propinas no Ensino Superior, já que "o estudante nunca pode ser mercadoria, independentemente do sítio onde se insira".

Para os jovens da sua idade, quais são as maiores preocupações neste momento complexo que, na sua perspetiva, deveriam ter uma resposta política mais urgente?

A pandemia veio agudizar problemas que já existiam e realçar outros que muitas vezes eram ignorados ou postos de lado. O que não podemos permitir no pós-pandemia é aceitar políticas de austeridade. Devemos sim apostar num Serviço Nacional de Saúde mais reforçado, com especial atenção à área da saúde mental, apostar no combate à precariedade a na criação de emprego, devemos proteger pensões e salários, apostar no direito à habitação digna e no ensino gratuito para todas e todos os jovens. Além disso, com base em tudo que temos visto nas notícias mais recentemente, com base em todos os alertas feitos pela comunidade científica ao longo dos últimos anos, o combate às alterações climáticas deve ser uma urgente prioridade política.

"O que não podemos permitir no pós-pandemia é aceitar politicas de austeridade. Devemos sim apostar num Serviço Nacional de Saúde mais reforçado, com especial atenção à área da saúde mental, apostar no combate à precariedade a na criação de emprego".

Uma das principais bandeiras do BE tem sido o combate à precariedade. Mas há uma série de alterações às leis laborais do tempo da troika que o Governo do PS, apoiado pelo BE, recusa reverter. Há dias, em entrevista ao jornal "Expresso", o primeiro-ministro disse que não vai mexer no período experimental de 180 dias nos contratos de trabalho. Como é que o BE aceita que essa sua bandeira (partilhada com o PCP) continue a ser uma reivindicação ignorada pelo Governo que viabilizou?

"Não creio que eu esteja viva para ver o dia em que o meu PSD se coligue com este Chega"
"Não creio que eu esteja viva para ver o dia em que o meu PSD se coligue com este Chega"
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A posição do BE passa sempre pela defesa dos direitos das e dos trabalhadores, especialmente daqueles que se encontrem em situações de trabalho precárias e que são, já agora, situações que atingem muitos jovens no nosso país. A nossa coordenadora, Catarina Martins, disse, já no ano passado quando se falava da possível criação de uma nova geringonça, que o que era preciso era que se dessem passos concretos para alterar a lei do trabalho. E leis que envolvem o combate à precariedade. Este aumento de 90 para 180 dias do período de experiência exigido nos contratos de trabalho é um autêntico retrocesso no âmbito do combate à precariedade.

O BE, enquanto partido, sempre que necessário, confronta. E certamente continuará a confrontar o Governo com questões plausíveis no que trata a defesa das trabalhadoras e dos trabalhadores portugueses. Seja no incentivo à contratação coletiva, seja relativamente aos trabalhadores das plataformas digitais, excluídos de muitas das políticas de proteção, seja relativamente aos trabalhadores dos call-centers, que vêem os seus direitos constantemente atacados, ou seja relativamente ao relatório que foi elaborado, juntamente com o Governo, contra a precariedade, para depois esse fazer acordos com a direita relativamente ao mesmo. E, portanto, independentemente da posição dos outros partidos, para o BE será sempre reivindicado o direito ao trabalho digno e a precariedade será sempre umas das nossas principais preocupações e o combate à mesma uma das nossas principais bandeiras.

"Este aumento de 90 para 180 dias do período de experiência exigido nos contratos de trabalho é um autêntico retrocesso no âmbito do combate à precariedade".
catarina ferraz

Nesse âmbito, as questões relacionadas com o primeiro emprego, estágios, condições precárias no trabalho, têm sido centrais no discurso político do BE. Como jovem, em início de vida adulta, quais são as suas principais preocupações relativamente a estas matérias?

Os baixos salários e uma situação laboral precária são os principais responsáveis e um dos principais entraves no que respeita à habitação. Porque as rendas são por si só muito caras e a situação pandémica só veio piorar este cenário, tanto em termos de precariedade no trabalho como em termos de habitação. Se estivermos a falar de zonas como a Área Metropolitana de Lisboa ou a Área Metropolitana do Porto, o cenário é ainda muito pior. Muitas pessoas não vão trabalhar para esses sítios, apesar de até por vezes conseguirem arranjar um emprego nessa zona, porque o preço da habitação lá torna isso simplesmente impossível... E se essas pessoas querem ter uma vida independente, onde não tenham, por exemplo, que dividir um apartamento com desconhecidos, as pessoas acabam por preferir não aceitar o emprego e procurar noutro sítio. E o mesmo acontece com os estudantes, porque nessas áreas metropolitanas concentram-se grandes universidades, onde muitos jovens ingressam todos os anos, mas a habitação é de tal forma cara, e não existe investimento suficiente nas residências, que muitos estudantes vêem-se obrigados a abandonar o seu percurso escolar.

"Não há uma política de 'boys' no Partido Socialista"
"Não há uma política de 'boys' no Partido Socialista"
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E depois isso entra ainda pelas propinas, porque quando estamos a falar do Ensino Superior não estamos só a falar de propinas em si. Estamos a falar da alimentação, dos custos de deslocação, da habitação e das propinas. São muitos fatores que entram aqui em termos económicos e em termos financeiros. As bolsas por norma cobrem certo valor dessas despesas, mas é raro cobrirem a sua totalidade. Aliás, a maioria das bolsas cobre apenas uma quantia e essa quantia normalmente é a propina. Portanto, qualquer despesa extra associada ao ensino superior não está coberta e, de certa forma, assim está-se a financiar a instituição em si. E, portanto, muitos dos estudantes que, devido a não terem essas possibilidades, deixam de conseguir pagar a propina, são forçados a sair do Ensino Superior, ingressam num trabalho que, por si só, também é precário e entramos num loop. Ingressar no Ensino Superior torna-se numa espécie de privilégio em Portugal. E isto só nas licenciaturas... Porque se quiséssemos falar dos tectos máximos da propina nos mestrados e nos doutoramentos, que neste momento são componentes importantíssimas da licenciatura, é surreal. O estudante nunca pode ser mercadoria, independentemente do sítio onde se insira. E esta ideia de "utilizador/pagador" não pode persistir.

"Nessas áreas metropolitanas [de Lisboa e Porto] concentram-se grandes universidades, onde muitos jovens ingressam todos os anos, mas a habitação é de tal forma cara, e não existe investimento suficiente nas residências, que muitos estudantes vêem-se obrigados a abandonar o seu percurso escolar".

Tanto o BE como o PCP têm apresentado propostas relativamente a esses problemas. Apoiar o Governo do PS será o melhor caminho para as implementar?

Nos últimos Orçamentos do Estado que trataram da questão das propinas, o BE teve um papel importantíssimo e a propina desceu porque houve negociação entre o Governo e o BE para isso. E teve um resultado positivo porque, de facto, agora pagamos menos propinas. Mas isso também não depende só de quem está deste lado. Depende de quem está do outro lado e se estariam dispostos a concordar... Porque se o BE quer fazer descer as propinas e eventualmente pudesse fazer um acordo com o PS, era preciso que o PS também o quisesse fazer. E nos últimos Orçamentos do Estado tem conseguido. Este último ano foi um ano atípico, devido à pandemia, e portanto não houve muito espaço nesse sentido. Houve muita gente que estava a pedir a suspensão das propinas e tudo mais, mas lá está, foi um ano em que não houve muito espaço para discutir isso devido a outras preocupações económicas.

Considera que o BE tem dedicado uma parte excessiva do seu discurso à oposição ao Chega de André Ventura, extrapolando a sua importância na cena política nacional? Ou tem sido proporcional?

O BE é uma barreira contra a extrema-direita e assim pretendo que continue. Não acho que o nosso discurso seja excessivamente direcionado a André Ventura ou a qualquer outro membro do seu partido. Inclusive, quando o debate nada tem que ver com o seu partido, não vejo qual seja o objetivo de o mencionar. Agora, parece-me óbvio que quando existe qualquer tipo de ataque a minorias, ou qualquer tipo de tentativa de relembrar retrocessos nos direitos que hoje temos como garantidos, nos pronunciemos sobre o assunto, na defesa dos mesmos.

"A ilegalização do Chega só cabe à Justiça. Aferir a constitucionalidade ou inconstitucionalidade das organizações partidárias cabe ao Tribunal Constitucional e à Justiça".

O que tenciona fazer o BE para suster o crescimento da extrema-direita em Portugal?

O BE combate as políticas odiosas, seja do Chega ou de qualquer outro partido que as sugira. E como é sabido, o BE empenha-se sempre no combate a estas políticas de extrema-direita e todas as nossas propostas, basta investigar um pouco, vão contra isso. Vão contra qualquer discriminação de qualquer direito humano básico. Nós não queremos que aconteça em Portugal uns EUA de Donald Trump ou um Brasil de Jair Bolsonaro, estaremos sempre aqui. Neste momento somos a terceira força política do país e, portanto, no que pudermos vamos ajudar sempre a combater estas políticas que eventualmente sejam propostas e que venham a afetar os direitos humanos ou incitar ao ódio. Não sabemos se isso vai acontecer, sequer, mas se acontecer é preciso combater essas ideias e proteger a voz de quem não a tem.

E isso passará pela eventual ilegalização do Chega?

A ilegalização do Chega só cabe à Justiça. Aferir a constitucionalidade ou inconstitucionalidade das organizações partidárias cabe ao Tribunal Constitucional e à Justiça. Enquanto partido e enquanto militantes, o que nós podemos fazer é, de facto, combater essas violações de direitos.

"Nunca são invasores estrangeiros a impor a democracia num país que não lhes diz respeito".

O BE critica a NATO sob a liderança dos EUA, mas ao mesmo tempo critica a retirada dos EUA do Afeganistão. Como é que explica este paradoxo? Nessa mesma linha, o BE defende a saída de Portugal da NATO. Como é que se garantiria depois a Defesa do país, investindo mais na Defesa?

A saída de Portugal da NATO engloba um debate de extrema importância. Fora os milhares milhões de euros gastos no aprimoramento desta organização ao longo dos anos, a NATO mostra-se, desde sempre, uma força aliada ao imperialismo e às grandes potências. Inclusive, na última cimeira da NATO, o atual presidente dos EUA insinuou que a China é uma potência que apresenta riscos de segurança para a comunidade internacional. E esta afirmação, além de se repercutir na segurança global, acrescenta um eixo anti-China perigoso. Os EUA, face à sua óbvia rivalidade com a China, rivalidade esta que é maioritariamente económica, criam esta tensão e esta escalada militar de forma a manter a sua forte influência e controlo nos mercados globais. E a NATO mantém-se, assim, disponível para quando a sua utilização for conveniente para os interesses da grande potência, mas pouco ou nada medeia.

Relativamente ao Afeganistão, a ocupação pela NATO é uma tremenda irresponsabilidade que já dura há anos. Não vejo outra definição. Toda essa situação veio exaltar o terrorismo em várias partes do mundo e, como repetidamente se tem provado e como já foi dito pelo BE, nunca são invasores estrangeiros a impor a democracia num país que não lhes diz respeito. Isso é extremamente verdadeiro e, além disso, relevante para a atualidade política. Ainda a questão do Afeganistão, fugindo um pouco ao assunto da NATO, é importante termos atenção ao tipo de notícias que são partilhadas relativamente ao assunto, especialmente no que se trata de mulheres, para não cairmos num discurso discriminatório contra as mesmas e contra a comunidade muçulmana no geral.

catarina ferraz

"A maioria das denúncias de assédio sexual são verdadeiras" e "temos sempre que ouvir a pessoa que supostamente é a vítima"

Recentemente, o movimento #MeToo teve uma réplica em Portugal que acabou por ser breve. O que pensa sobre esse fenómeno?

Acho que em termos de movimentos feministas não precisamos só de recorrer ao #MeToo, apesar de ser um movimento importante. Tanto em Portugal, como infelizmente em vários sítios, o assédio sexual é um problema real e é um problema que infelizmente tem tido alguma persistência, independentemente do setor onde nos inserimos. E todas as mulheres, ou quase todas - são os tais 97% - já experienciaram isso pelo menos uma vez e, portanto, em Portugal não será diferentes dos outros sítios.

E como é que se pode combater esta violência machista? Nós temos a violência doméstica, que é um dos principais crimes em Portugal, e sendo as principais vítimas mulheres, é preciso tomar medidas urgentes. Mas é também um tema bastante complexo, porque como é que podemos proteger as vítimas? Com urgência, porque existem medidas, existem casas de acolhimento, existem apoios psicológicos, existem apoios financeiros, existe o facto de se retirar as mulheres do lado do seu agressor, mas muitas vezes os filhos ficam com o agressor, muitas vezes isso já acontece tarde demais e, portanto, tanto o assédio sexual como a violência doméstica, que são dois fenómenos impactantes contra a mulher, é preciso que sejam combatidos através de qualquer movimento que esteja disposto a ajudar nesse combate.

Tivemos várias denúncias, vindas essencialmente de mulheres. Houve pelo menos uma denúncia que envolveu o BE o deputado Luís Monteiro, classificada pelo próprio como falsa. Considera que as denúncias comprovadamente falsas descredibilizam a luta feminista?

As denúncias que são verdadeiras são a maioria e não podemos olhar para denúncias que são falsas. Nos EUA, por exemplo, essas denúncias falsas não descredibilizaram o movimento em si. Mas na criação de movimentos nunca vai correr tudo 100% bem, não é? Então eu penso que tanto o #MeToo em Portugal, como nos EUA, em qualquer país que seja, vai ter denúncias que sejam falsas e denúncias verdadeiras e, na sua maioria, são verdadeiras. E temos sempre que ouvir a pessoa que supostamente é a vítima e que tem a coragem de expor o seu problema.

Carolina Ferraz

Questionário de Proust

"Não gostava de ser uma pessoa odiada"

Admira a avó e acredita que não sente desprezo por ninguém. "Tranquila", como de resto classificou o seu estado de espírito, Catarina Ferraz revela ao Polígrafo, em resposta a algumas perguntas selecionadas do conhecido questionário de Proust, que gostaria de saber dançar, talento que confessa não ter. 

Qual é o seu principal defeito?

Sou uma pessoa extremamente impaciente.

E a sua principal virtude?

Sou bastante persistente naquilo que quero.

O que é que mais aprecia num amigo?

Honestidade.

Qual é a pessoa viva que mais admira?

A minha avó, provavelmente.

E a que mais despreza?

Acho que não sinto desprezo por ninguém.

O que é que mais gosta de fazer?

Gosto muito de ler e de viajar.

Um escritor de prosa…

José Saramago.

E um poeta?

Questão complicada... Bukowski, talvez.

Diga uma palavra – ou frase – que usa com muita frequência.

Acho que não tenho nenhuma...

Lema de vida

Sempre que houver oportunidade, aproveitá-la.

Um país para viver…

Talvez Suiça.

E uma flor para plantar...

Girassóis.

Que talento não tem e gostaria de ter?

Saber dançar.

E extravagâncias? Tem?

Não sou uma pessoa muito extravagante.

O que é que gostaria de ser?

Não sei... Gostava de fazer investigação na área dos direitos das mulheres.

E o que é que não gostaria de ser?

Odiada, talvez.

Algum pintor de eleição?

Gosto muito de Van Gogh.

Uma personagem histórica que odeie.

Sei lá... Mussolini, Salazar...

Como gostava de morrer?

Talvez a dormir. Deve ser menos doloroso.

E o seu estado de espírito atual?

Tranquila.

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