Nuno Folgado, de 44 anos, foi o autor de uma publicação que fez furor nas redes sociais e que despertou a atenção da imprensa portuguesa. Nela, escreve que um rapaz chamado Tiago Santos (na imagem acima), de Torre de Moncorvo, ficara em 2.º lugar nas Olimpíadas de Física Quântica, mas o que muitos não perceberam foi que se tratava de 'fake news'.

O rapaz da foto nunca venceu nenhum prémio da física e as Olimpíadas de Física Quântica não aconteceram na altura em que o post foi publicado. Para os mais distraídos, eis a explicação:  o "jovem génio" da foto aparece com um casaco da marca Brazzers, um conhecido site de filmes pornográficos. Uma pesquisa rápida na Internet permite identificar que se trata do espanhol Jordi "El Niño Polla". A mesma foto tornou-se viral na América Latina, mas com o nome do estudante José Manuel Velasquez.

Ainda assim foram muitos os que acreditaram que o conteúdo publicado era verdade, conta ao Polígrafo o autor da publicação, que na sua vida "civil" trabalha como segurança. A imagem foi partilhada 93.295 vezes no Facebook e, segundo o autor, "foi uma grande dor de cabeça". "É preciso formar e sensibilizar as pessoas para aquilo que é publicado online", diz.

O que o levou a fazer essa publicação?

Digamos que eu sou uma espécie de "Tony Carreira do Facebook". Vejo umas coisas lá fora, dou-lhes um jeitinho e adapto para a nossa realidade. Havia uma publicação parecida que circulou e fez furor no Brasil e decidi fazer aquilo mesmo por brincadeira. Não tenho blog, não tenho YouTube. O que tenho são 300 amigos no Facebook, que conheço a todos, e a única coisa que eu fiz foi tornar aquela publicação pública e publiquei aquilo só no meu mural para brincar com uns amigos. Nesse dia, quando dou por ela, aquilo estava a tomar uma proporção gigantesca. Presumo que algumas das pessoas que tenho como amigos nas redes começaram a partilhar e, a partir daí, a publicação atingiu umas centenas de partilhas. No dia a seguir já eram milhares.

Tinha alguma noção do impacto que essa publicação poderia ter nas redes sociais?

Não tinha mesmo. Foi uma coisa totalmente sem noção. Gosto muito de fazer uns memes, umas piadas, mas não levo isto muito a sério. Nem pouco, nem mais ou menos. Gosto muito de desmontar as situações que aparecem, para dizer aos meus amigos: "Vai verificar isso". O meu campo no Facebook é apenas esse. Mas depois há pessoas que levam aquilo realmente muito a sério.

"Digamos que eu sou uma espécie de "Tony Carreira do Facebook". Vejo umas coisas lá fora, dou-lhes um jeitinho e adapto para a nossa realidade. Havia uma publicação parecida que circulou e fez furor no Brasil e decidi fazer aquilo mesmo por brincadeira."

Foram mais as pessoas a perceberem que a publicação era falsa ou houve muita gente a concordar com aquilo que lá estava escrito?

Houve pessoas que viram logo que aquilo era falso e depois houve outras que acreditaram. As pessoas que perceberam logo que era falso era pessoas mais novas, pessoal na casa dos 20 ou 30 anos. Os próprios iam lá para ironizar a situação. Já aqueles que partilharam e que acreditaram no conteúdo da publicação eram sobretudo pessoas mais velhas. Salvo situações mais específicas foi assim. As pessoas mais velhas iam lá dizer "que lindo menino", "orgulho do papá". Depois de ver aquilo, comecei também eu próprio a brincar com a situação e a responder aos comentários. Recebi vários pedidos de amizade e foram milhares de pessoas que me começaram a seguir e a acompanhar as minhas publicações.

Folgado
Nuno Folgado, o autor da fake news que se tornou viral

Houve também jornais a pegar nessa publicação...

A Comunidade Céptica Portuguesa (COMCEPT) fez um artigo sobre isso e houve um jornalista de um jornal regional do Minho que me contactou por mensagem para saber se eu tinha o contacto do "Tiago" para fazer uma entrevista com ele. Respondi-lhe que, como jornalista, deveria verificar as fontes e que estava claro que a informação era falsa. O rapaz da foto aparece com uma camisola da Brazzers. Ninguém é obrigado a conhecer essa editora, mas a informação está lá visível. Ainda me dei ao trabalho de responder a cerca de uma centena de pessoas para lhes pedir que verifiquem sempre a informação antes de partilharem nas redes sociais e, na dúvida sobre uma informação, não partilhem. Foi uma grande dor de cabeça.

Acha que as redes sociais são um perigo para numa sociedade democrática, no sentido em que tem contribuído para a desinformação?

Acredito que muitas pessoas não estão preparadas para lidar com a informação que encontram nas redes sociais, sobretudo as pessoas mais velhas. Tenho a ideia de que mais de metade das coisas que são partilhadas nas redes são falsas e devia haver uma certa formação para estas pessoas, porque esta é uma ferramenta com grande poder nos dias de hoje. É muito fácil ir para as redes sociais difamar alguém. Se eu quiser fazer mal ao meu vizinho, basta ir para o Facebook dizer que ele é pedófilo. Do nada, temos cem mil partilhas e a vida da pessoa arrasada. Depois demora muito mais tempo para desmontar a mentira do que a velocidade com que ela se propaga.

As pessoas mais velhas iam lá dizer "que lindo menino", "orgulho do papá". Depois de ver aquilo, comecei também eu próprio a brincar com a situação e a responder aos comentários. Recebi vários pedidos de amizade e foram milhares de pessoas que me começaram a seguir e a acompanhar as minhas publicações.

Em relação à imprensa, acha que ela sai descredibilizada por casos como este?

Completamente. O que interessa para muitos jornais é causar impacto e causar sensação. A ideia dos grandes meios de comunicação é ter leitores e audiências para que as pessoas comprem ou vejam aquele em vez do outro.

Quando foi a última vez que comprou um jornal em papel?

É uma boa pergunta. Acho que a última vez que comprei até nem era para mim. Há muito que não compro um jornal. Leio os destaques por alto quando tenho acesso a algum jornal no trabalho ou noutro sítio qualquer. Vejo sobretudo notícias online, em vários sites que considero fidedignos para escrever as minhas piadas.

Acha que é pertinente o crescimento do jornalismo de fact-checking em Portugal?

Sim, acho que tem toda a pertinência. Até porque, não havendo uma ferramenta que permita filtrar as notícias, não há muitas forma de se verificar a veracidade das notícias que vão parar às redes sociais. A direita tem crescido muito à conta disso e estou-me a lembrar, por exemplo, do caso do relógio da Catarina Martins. Alguém que queira denunciar uma notícia falsa, tem no fact-checking uma boa forma de confrontar os factos.

"Não incentivei ao ódio, nem fui contra qualquer comunidade em específico. Foi uma publicação inocente perfeitamente inócua."

Mas a verificação dos factos não deveria ser um papel dos jornalistas?

Claro que sim. Mas espantou-me imenso aquele jornalista do Minho me ter contactado para entrevistar o "Tiago". Grande parte da imprensa que temos hoje quer é mandar as notícias logo cá para fora, ter o exclusivo, e não se preocupa muito em verificar a credibilidade das fontes. Têm muito aquela atitude de, se houver desmentidos, logo se vê. Se não houver, o assunto morre logo por ali. Mas em relação ao Facebook e às redes sociais, acho que deveria haver uma educação por parte das pessoas para saberem quando devem partilhar alguma coisa, como é que se pode verificar que as informações estão corretas e quando devem denunciar as 'fake news'.

O Facebook já veio dizer que está focado no combate às 'fake news' para fazer frente à crise de confiança pública que enfrenta. Já alguma vez teve uma das suas publicações bloqueadas pelo Facebook?

Não. Aquela publicação teve na altura uma série de denúncias e eu próprio assumi que a publicação era falsa. Os padrões que estão definidos pelo Facebook para bloquear notícias estão, por enquanto, ainda focados em questões como o incentivo ao ódio e à violência. Ainda assim, há publicações dessas que eu denuncio e depois recebo uma notificação do Facebook a dizer que não havia motivos para bloquear fosse o que fosse.

"Em relação ao Facebook e às redes sociais, acho que deveria haver uma educação por parte das pessoas para saberem quando devem partilhar alguma coisa, como é que se pode verificar que as informações estão corretas e quando devem denunciar as 'fake news'."

Continua a publicar piadas como aquela na sua página de Facebook?

Não muito. Depois de ter tido pessoas a mandar-me mensagens, a insultar-me e outras a adicionarem-me no Facebook, só publico coisas quando dá mesmo para brincar. Brinco muito com o Correio da Manhã, que é uma espécie de lama em forma de jornalismo, e gosto de fotografar manchetes das notícias e rodapés de notícias na televisão. Nunca publiquei muita coisa, foi mesmo essa publicação do suposto rapaz génio que gerou este burburinho todo. Por brincadeira, nada me impede de o voltar a fazer. É importante referir que esta situação não afetou diretamente ninguém. Trata-se de um rapaz espanhol que é modelo nos Estados Unidos e que possivelmente nunca teve conhecimento desta publicação. Não incentivei ao ódio, nem fui contra qualquer comunidade em específico. Foi uma publicação inocente perfeitamente inócua.

Como é que acha que deve ser feito a verificação da informação?

Acho que isso não deve partir do Governo porque senão vai ser encarado como um ataque à liberdade de expressão e àquela ideia de que podemos dizer o que queremos. Acho que essa verificação dos factos deve partir sobretudo dos órgãos de comunicação social. Nas redes sociais, quem quiser espalhar informação falsa espalha, mas depois se os jornais pegam nisso, as mentiras passam a ser assumidas como verdades. Se as pessoas conseguirem perceber que a informação é falsa, aquilo não se vai espalhar.