O PCP tem 100 anos, o António tem 25 anos. Porquê este partido, porquê esta juventude partidária e, sobretudo, o que motiva um jovem a aderir ao mais antigo partido político português?

O que leva um jovem a aderir ao PCP é a profunda vontade de querer transformar a realidade em seu redor. Advém do inconformismo e da ânsia de querer um mundo melhor, sabendo que somente de forma coletiva é que se alcança tal objetivo. Ou seja, é ao encarar a realidade, ao perceber que a mesma não é estanque e que existe um colectivo que partilha uma causa comum, que um jovem sente a necessidade de tomar partido.

A minha motivação foi também essa. Ao analisar a realidade à minha volta, foi já na Faculdade, ao ver que havia quem identificava os mesmos problemas que eu identificava e ao ver que os comunistas estavam lá a dar a cara à luta e envolviam mais colegas nessa mesma luta comum. Foi aí que tive a motivação de aderir à Juventude Comunista Portuguesa (JCP) e integrar uma organização que na sua ação diária e contínua afirma pela prática que é a organização revolucionária da juventude.

Como é que foi o seu percurso académico? Ainda está a estudar... Trace-me um perfil seu.

Estou a acabar a licenciatura em Ciência Política no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa.
Nasci em Lisboa, cresci em Oeiras, mais concretamente em Paço de Arcos, onde estudei até ao 11.º ano. No 12.º ano emigrei para Moçambique com a minha família e passado um ano voltei a Portugal para ingressar no Ensino Superior. Já na Faculdade, como disse, inscrevi-me na JCP e atualmente sou membro da Comissão Política da Direção Nacional da JCP e do seu Secretariado.

Em entrevista ao jornal "Público" contou que "a forma intensa" como a professora de História do liceu deu a matéria do 25 de abril e a forma "igualmente intensa" como falou sobre a luta do PCP motivou-o, então com 14 anos, a pedir aos pais para o levarem à "Festa do Avante!" Sente que foi condicionado pelo ensino a seguir essa via política? E sendo a História lecionada de acordo com programas similares, como é que influencia alunos a seguir caminhos políticos tão distintos?

Antes pelo contrário. Teria sido condicionado se a minha professora à data tivesse branqueado a História e apagado por completo o papel determinante que o PCP teve na luta contra o fascismo. Tive a sorte de ter tido uma professora que se manteve fiel aos acontecimentos históricos e que organizou uma visita de estudo ao Forte de Peniche, por exemplo, ou que organizou uma espécie de manifestação com as turmas do 6.º ano por volta do 25 de abril para afirmar a data e os valores. Hoje muitos ficarão indignados ao ler isto, pois acham que a História deve ser neutra, escondendo o desejo e objetivo que a mesma seja branqueada e apagada conforme determinados interesses. Mas o que me foi transmitido por essa professora foram acima de tudo os valores de abril que talvez tenham ganho essa intensidade porque a professora, além da sua profissão, era também uma democrata.

"As mulheres não têm tanto interesse, ou até apetência, para desempenhar cargos políticos"
"As mulheres não têm tanto interesse, ou até apetência, para desempenhar cargos políticos"
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Agora, há é um problema com as suas perguntas: assume a influência quase como uma doutrinação. A disciplina de História acima de tudo deve mostrar-nos o passado para aprendermos com ele, mas não é o alfa e o ómega da nossa formação enquanto indivíduos. Há um conjunto de elementos objetivos como os socio-económicos e de elementos subjetivos como as vivências e experiências que definem o nosso posicionamento face à vida. No meu caso, a disciplina de História acabou por ser determinante, mas sabendo que a disciplina de História é lecionada de forma variada mediante a metodologia de cada professor, admito que tenha outro tipo de impacto na vida de milhões de jovens que tiveram tal disciplina.

"Teria sido condicionado se a minha professora à data tivesse branqueado a História e apagado por completo o papel determinante que o PCP teve na luta contra o fascismo. Tive a sorte de ter tido uma professora que se manteve fiel aos acontecimentos históricos e que organizou uma visita de estudo ao Forte de Peniche. (…) Hoje muitos ficarão indignados ao ler isto, pois acham que a História deve ser neutra, escondendo o desejo e objetivo que a mesma seja branqueada e apagada conforme determinados interesses".

Já traçou um possível caminho a fazer dentro do partido? Pretende viver da política?

Como sabe, nós comunistas temos uma forma diferente de encarar a vida. Assumirei as tarefas que os meus camaradas decidirem que eu deva assumir na JCP ou no partido, sejam elas quais forem. Sobre viver da política, também deve saber que esse não é um princípio pelo quais se regem os comunistas, sendo que nós encaramos cada tipo de tarefa com o princípio de ser não sermos beneficiados nem prejudicados. Mas é como lhe disse, estou disposto para as tarefas que o coletivo partidário me confiar.

© Polígrafo / Pedro Mensurado

O que mudaria naquilo que é o PCP de hoje?

Os contributos que dou ao fortalecimento do partido são colocados nos espaços adequados no sentido de contribuir para a discussão coletiva. Como já disse, temos liberdade na discussão e é através dela que reforçamos a nossa ação coletiva.

Não está a tornar-se um partido demasiado envelhecido, com poucos rostos novos?

Poucos rostos novos? Não me parece. Veja a composição etária do XXI Congresso do PCP que, em 618 delegados, 350 tinham menos de 50 anos e destes 80 delegados menos de 30 anos. Como já lhe disse, estamos a falar de um partido que tem uma organização de juventude que na fase de preparação do seu congresso em pouco mais de 3 meses faz mais de 300 recrutamentos.

Tende-se a fazer passar muito essa ideia, talvez até dê jeito, mas o PCP com os seus 100 anos dá cada vez mais provas de ser o partido da juventude. Claro que tem militantes mais velhos e capta eleitores mais velhos, mas é normal vindo do partido que maiores contributos deu ao derrubamento do fascismo. Prova que a sua ação é coerente e os seus princípios não se moldam conforme a orientação do vento.

Se não fosse o PCP, havia alguma possibilidade de estar envolvido na política? Noutro partido, talvez?

Haveria certamente outra forma de estar envolvido na política até porque basta estar envolvido no movimento associativo popular para estar envolvido na política. A política não são só partidos políticos. Participando nas várias esferas da vida está-se a ter ações políticas. Mas não quero fugir à sua pergunta. O PCP existe e, ao longo dos seus 100 anos de História, deu provas de estar sempre no lado certo da luta em defesa dos interesses da juventude e do povo. Houve um percurso que me fez vir até à JCP e ao PCP, um percurso que foi formando a minha concepção do mundo e a sua necessidade de transformação. Neste sentido, vejo-me no PCP.

"As mulheres têm um pensamento mais conservador, mais maternal..."
"As mulheres têm um pensamento mais conservador, mais maternal..."
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A caminho das eleições autárquicas, o que será para o PCP um bom resultado?

Um bom resultado para a CDU é o seu reforço no plano nacional tendo em conta que isso corresponderá à melhoria de vida das populações. Para já pode dizer-se que a CDU se apresenta com listas próprias a 305 dos 308 municípios do país e a mais de 1.630 freguesias, o que confirma o amplo espaço democrático e de convergência que este projeto transporta, a par de uma assinalável ligação à realidade concreta de cada sítio.

Nas autárquicas de 2017, o resultado foi negativo para o PCP, que perdeu então uma dezena de presidências de Câmaras Municipais, no caso de Almada pela primeira vez desde 1974. Que consequências poderá ter um novo desaire em 2021? Motivará uma reflexão interna sobre a relação com o Governo do PS, nomeadamente quanto à viabilização de Orçamentos do Estado?

Uma característica do PCP é a constante capacidade de reflexão, não sendo para isso necessárias eleições. A própria realidade obriga a que haja uma reflexão constante sobre ela. Sobre as eleições autárquicas, não faremos análises simplistas. É verdade, por um lado, que a CDU perdeu Câmaras Municipais, mas é também verdade que houve um conjunto de sítios onde a CDU reforçou a sua presença e conseguiu influenciar de forma positiva a vida das populações, como também reforçou a sua presença em Setúbal ou Évora. Há que entender a natureza das eleições autárquicas que são bastante específicas, onde cada município ou freguesia obedecem a dinâmicas muito concretas e que variam bastante ao longo do território nacional.

João Ferreira volta a ser o cabeça-de-lista em Lisboa, protagonizando a sexta candidatura em oito anos, no âmbito de eleições autárquicas, europeias e presidenciais. Não se estará como que a gastar a imagem de um possível futuro líder do partido?

A candidatura de João Ferreira a presidente da Câmara Municipal de Lisboa, encabeçando a lista da CDU, afirmando o incomparável património de intervenção em defesa do povo e da cidade de Lisboa, é uma boa notícia para os lisboetas. Um bom resultado da CDU será uma notícia ainda melhor.

O eleitorado do PCP tem vindo a diminuir, o que pode estar relacionado com o desaparecimento de pessoas mais velhas que votavam sempre religiosamente no PCP e com uma menor capacidade de conquistar os votos dos jovens. Como é que se inverte esta situação?

Terá que me dizer qual é a base para dizer que o PCP não tem conquistado jovens. Ficarei à espera de saber. Até lá o que lhe digo é que no processo preparatório do Congresso da JCP, mais de 300 jovens decidiram tomar partido e aderir à JCP. Que outro partido pode dizer o mesmo? Digo-lhe até que, neste contexto atípico em que vivemos, durante o processo preparatório do Congresso da JCP tivemos mais de 100 reuniões de discussão do Projecto de Resolução Política e centenas de propostas de alteração. Tivemos ainda Encontros Regionais em Lisboa, Porto, Braga, Évora, Santarém e Setúbal e vários plenários. Isto tudo em pouco mais de três meses, onde a exigência era grande, onde os jovens comunistas continuaram a dar a cara na luta e nos dias 15 e 16 de maio lá estiveram em Vila Franca de Xira a realizar o 12.º Congresso da JCP. Isto não me parece um partido que tem falhado em conquistar jovens. Parece-me exatamente o contrário.

"No processo preparatório do Congresso da JCP, mais de 300 jovens decidiram tomar partido e aderir à JCP. Que outro partido pode dizer o mesmo? (…) Isto não me parece um partido que tem falhado em conquistar jovens. Parece-me exatamente o contrário".
© Polígrafo / Pedro Mensurado

No âmbito das eleições autárquicas, há espaço para os jovens nas concelhias do PCP? Há mais ou menos abertura do que noutros partidos mais jovens como o Bloco de Esquerda, por exemplo?

Sobre os outros partidos falam os seus dirigentes, certamente não o farei. Sobre estereótipos também não creio ser muito interessante. Mas cá vai. Sobre o PCP e a CDU, a participação de todos é um elemento distintivo. Aconselho-a a estar atenta às listas da CDU e o vasto número de jovens que delas fazem parte. Repare é numa coisa: a ligação à juventude não se faz somente pela medição do número de jovens que integram as listas, neste caso das eleições autárquicas faz-se também pela defesa dos interesses da juventude nos vários programas que vão ser sufragados, como por exemplo não aceitar a municipalização da Educação.

Uma das principais bandeiras da JCP é acabar com os exames nacionais. Não poderá abrir um fosso ainda mais profundo entre as escolas públicas e as escolas privadas? Vemos, nomeadamente, a recente polémica com a diretora do Ribadouro, entre várias outras... 

Gostaria de dissecar a sua pergunta. Dizer que 'poderá abrir um fosso ainda mais profundo' assume desde já a noção de que esse fosso existe e deve ser combatido. Assumir que os exames são a forma como se combate esse fosso é negar a realidade que todos os indicadores evidenciam, uma vez que continuam a ser os estudantes das escolas privadas a ter as melhores notas nos exames nacionais. Ou seja, não estão claramente a ser os exames nacionais a acabar com esse fosso. Pelo contrário, ainda o aprofundam.

"Consigo fazer muito mais mudanças no BE do que fora"
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Aqui o problema está na promoção da ideia de que os exames nacionais resolvem as enormes diferenças que existem entre estudantes, tanto socio-económicas como escolares, pura e simplesmente porque se coloca a todos a mesma prova, ao mesmo tempo e com a mesma duração. Não há nada mais falacioso do que essa retórica. O que os exames nacionais comprovam é que os estudantes têm pontos de partida diferentes. Enquanto as privadas providenciam as melhores condições de aprendizagem aos estudantes, as públicas, em grande parte, lutam por verbas para terem condições de ensino dignas. Desafio-a a ir à Escola Secundária Manuel Cargaleiro [na freguesia de Amora, Seixal] para ver se os estudantes estão sequer com as mesmas condições de aprendizagem do que os estudantes numa escola privada.

O fosso já está claramente aberto e o objetivo dos exames nacionais não é tapá-lo, é precisamente mantê-lo, tendo como objectivo funcionar como instrumento que barra o acesso ao Ensino Superior. É a ferramenta que diz a estudantes que vêm de um contexto socio-económico mais difícil, que não conseguem pagar explicações nem livros de estudo, que têm a sua escola degradada e estão numa turma com mais de 30 alunos, 'tu não tens direito ao Ensino Superior'.

Esta época de exames demonstra isso mesmo. A JCP, só no distrito de Lisboa, esteve em mais de 40 escolas durante a primeira fase da época de exames e o balanço que fazemos é preocupante. A resposta dos estudantes aos exames foi claramente emocional. Foi intensificada a ideia de que uma prova de duas ou três horas absolutiza a vida de jovens de 17 e 18 anos, contribuiu para intensificar a degradação da saúde mental e para um sentimento de revolta enorme. Os estudantes viram que num contexto onde tudo mudou, os exames, na sua essência, continuaram iguais. Mudaram-se os métodos de ensino-aprendizagem, mudaram-se os ritmos de vida, deteriorou-se a qualidade de ensino, mas a prova que define o futuro continuou exatamente igual.

Que modelo alternativo é que defendem?

A alternativa existe, mas exige repensar o ensino como atualmente o encontramos. A alternativa tem de passar, em primeiro lugar, pelo fim do sistema de numerus clausus, assegurando vagas para todos os estudantes que queiram aceder ao Ensino Superior e tenham aproveitamento no Ensino Secundário. Mas também por uma justa avaliação contínua, sendo para tal preciso valorizar a escola pública, o que significa um maior investimento que garanta qualidade de ensino nas suas variadas formas, a melhoria das condições materiais das escolas, a valorização das carreiras dos professores, a contratação de mais professores, a redução do número de alunos por sala de aula, entre outros aspectos que numa visão global têm impactos na avaliação contínua.

"Não creio que eu esteja viva para ver o dia em que o meu PSD se coligue com este Chega"
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Mesmo relativamente ao acesso ao Ensino Superior é necessário que, até por necessidades objetivas que o nosso país tem, a solução não passe pelo afunilamento, mas sim por garantir que as instituições de Ensino Superior têm cada vez mais condições para receber cada vez mais estudantes, começando pelo numerus clausus mas indo a outros aspectos como a Ação Social e o fim das propinas, por exemplo. A seriação, sendo necessária, deve ser feita a partir da avaliação interna do Ensino Secundário. Se há suspeitas de notas inflacionadas, fiscalize-se. Mas que isso não seja pretexto para prejudicar ainda mais os estudantes da escola pública.

"Os estudantes viram que num contexto onde tudo mudou, os exames, na sua essência, continuaram iguais. Mudaram-se os métodos de ensino-aprendizagem, mudaram-se os ritmos de vida, deteriorou-se a qualidade de ensino, mas a prova que define o futuro continuou exatamente igual".

A legalização da canábis para consumo pessoal é um tema muito debatido entre os jovens. O PCP já expôs a sua posição, mas certamente que há divergências dentro do partido e, inclusive, dentro da JCP. Qual é a sua perspetiva relativamente a essa matéria?

É natural que haja diferentes opiniões dentro do partido. Uma coisa que marca o PCP e a JCP é a liberdade na discussão e a unidade na ação. Mas uma coisa é haver diferentes pontos de vista em cada assunto, outra coisa é haver divergências como quer fazer passar.
O PCP orgulha-se de ter estado na origem da atual legislação, que discriminalizou o consumo e assume o consumidor como uma pessoa que precisa de ajuda e apoio especializado. O PCP tem, por isso, a sua posição bem definida.

Quanto à utilização de canábis para fins terapêuticos, essa é também matéria já prevista na lei e até já se comercializa um medicamento em Portugal. Quanto ao chamado auto-cultivo, não vemos que seja necessário legislar sobre essa matéria, desde logo por razões de segurança. O PCP propõe uma avaliação clínica dos usos da canábis sativa para fins terapêuticos e mediante essa mesma avaliação e as possíveis vantagens que daí advenham, a sua utilização no Serviço Nacional de Saúde.

Veremos algum dia o PCP a votar favoravelmente a despenalização da eutanásia ou morte medicamente assistida? Se sim, em que condições?

Acho que a declaração de voto do PCP, relativamente a essa questão, foi muito clara. Primeiro, estamos a falar de vidas humanas e a discussão em campos hipotéticos costumas levar à relativização da vida humana. Segundo, está a tentar antecipar uma discussão quando os principais problemas do Serviço Nacional de Saúde ainda não estão resolvidos, quando a própria investigação científica é condicionada pela escassez de fundos, quando as respostas necessárias para vários problemas de saúde se encontram nas mãos de multinacionais e são encaradas como meros instrumentos de negócio e chantagem... E quando não é tomada a opção de se levantarem patentes para responder aos graves problemas que temos pela frente.

Se não, qual é o caminho a seguir nesta matéria?

Lá está, está a colocar a questão em campos hipotéticos. A prioridade deve ser outra e registo a preocupação de colocar essa questão e não sobre os problemas que estão pela frente. Hoje, a pretexto da Covid-19 já há quem avance com a ideia de os Estados-membros da União Europeia poderem vir a abdicar da sua soberania no que toca à Saúde. No nosso caso, isso teria graves impactos no Serviço Nacional de Saúde. Parece que o objectivo é continuar o rumo já avançado pelas várias décadas de políticas de direita e incrementar ainda mais a Saúde como um negócio, com a entrega a monopólios económicos dos cuidados de Saúde. É neste contexto que me está a fazer estas questões.

Mas qual é a sua posição?

A minha opinião é a opinião de um comunista que lhe está a responder a uma entrevista. Tomem-se todas as medidas e façam-se todos os investimentos para que se possa viver com dignidade. Já viu o que é preciso andar para assegurar isso?

"A pretexto da Covid-19 já há quem avance com a ideia de os Estados-membros da União Europeia poderem vir a abdicar da sua soberania no que toca à Saúde".

Considera legítimo apelidar de "trabalhadores do sexo" todas as pessoas envolvidas na prostituição?

Há as pessoas que são prostituídas, muitas delas ligadas a redes de tráfico humano e depois há quem as explora, donos e organizadores dessas mesmas redes de tráfico humano. Parece-me que uns e outros não são iguais e, neste caso concreto, os primeiros são vítimas e os segundos criminosos. Neste sentido, nenhum entra nesse conceito que alguns agora tentam passar por moderno e emancipador, mas que visa legitimar a violência contra as mulheres.

"Não há uma política de 'boys' no Partido Socialista"
"Não há uma política de 'boys' no Partido Socialista"
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Esta discussão não é propriamente nova, mas veja que quem faz muita força para tentar branquear a natureza desta forma brutal de violência e exploração é geralmente quem quer o reconhecimento da prostituição como profissão, é quem lucra com ela e explora quem se prostitui. O que querem não é a legalização da prostituição, até porque sabem muito bem que não é ilegal, querem é a legalização do proxenetismo.

"O conceito de 'trabalhadores do sexo' visa legitimar a violência contra as mulheres. (…) Quem faz muita força para tentar branquear a natureza desta forma brutal de violência e exploração é geralmente quem quer o reconhecimento da prostituição como profissão, é quem lucra com ela e explora quem se prostitui. O que querem não é a legalização da prostituição, (…) querem é a legalização do proxenetismo".

Como é que se poderia abolir a prostituição sem incorrer numa abordagem paternalista, de que é exemplo a noção de que as mulheres não conseguem decidir por elas mesmas o que pretendem fazer com o seu corpo?

O problema aqui é assumir que isto é simplesmente uma decisão sobre o corpo. É simplificar tanto a questão ao ponto de dizer que ajudar mulheres a sair de redes de tráfico humano é paternalismo. É não compreender que grande parte das mulheres que seguem essa vida estão em claras condições de fragilidade, por consequência do próprio sistema em que vivemos que coloca as mulheres em clara desigualdade face aos homens no trabalho e na vida. As mulheres recebem piores salários, com vínculos de trabalho precários e são despedidas com maior facilidade, muitas acabam por não ter outra alternativa do que recorrer à prostituição. Isto não é uma opção livre, é uma imposição e reflexo de um sistema que historicamente oprime as mulheres.

A abolição passa por erradicar este sistema, mas no atual momento é necessário criar um conjunto de mecanismos que garantam o combate a esta forma de exploração. O PCP propõe a adopção de um Plano de Combate à Exploração na prostituição que estude aprofundadamente a realidade da prostituição em Portugal, que adopte medidas de prevenção das causas económicas, sociais e culturais que aprisionam as mulheres nas redes de prostituição. E exige que os poderes políticos reconheçam a prostituição como uma grave violência sobre as mulheres, inscrevendo-a nas prioridades de combate e prevenção a todas as formas de violência sobre as mulheres.

© Polígrafo / Pedro Mensurado

Existem hoje vários modelos do denominado "trabalho sexual". Por exemplo, o que pensa sobre a pornografia e a venda de fotografias em plataformas online como a "OnlyFans"?

Lá está, o PCP não reconhece essa terminologia e, relativamente a essa plataforma, isso não é mais do que uma evidência do que respondi anteriormente. Essa plataforma não é nada mais do que um avanço descarado da objectificação e mercantilização do corpo das mulheres em prol do lucro. Poder-me-á dizer que não existe proxenetismo neste caso, mas a plataforma continua a lucrar com a exposição do corpo da mulher. Em vez de o proxeneta ter relação direta com a pessoa que está a ser explorada, utiliza uma plataforma digital para recolher os seus lucros. O princípio e a natureza são os mesmos, houve apenas uma adaptação.

O acesso à habitação e o fenómeno da especulação imobiliária destacam-se entre as maiores preocupações dos jovens, sobretudo dos que estão a entrar no mercado de trabalho. Que respostas a estes problemas é que podem encontrar no PCP e na JCP?

Perguntou-me como é que se cumpria a Constituição, a ação do PCP e da JCP tem ido nesse sentido. Na altura da "lei das rendas", a conhecida "lei Cristas", o PCP e a JCP batalharam contra tais alterações. Demos um contributo decisivo na Lei Bases da Habitação, mas claro que é preciso ir mais longe. Por isso mesmo, o PCP, aquando da discussão do último Orçamento do Estado, apresentou como proposta a criação de um regime excecional do pagamento das rendas que reduziria o valor da renda em situação de perda de rendimentos com a devida compensação. Mas sem alinhar em chantagens especulativas. Propusemos o reforço de verbas num montante de 25 milhões de euros para financiar o programa "Porta 65", propusemos ainda a defesa e disponibilização do património público com condições adequadas para dar resposta às necessidade de habitação.

Abstenções e votos contra do PCP em matérias de direitos das pessoas LGBTI têm sido recorrentes ao longo dos anos. Este é aliás um dos maiores ataques que o BE faz ao PCP. Encontra fundamento nesse ataque? O que é que faz falta nas propostas do BE relativamente a este tema e o que é que trava o PCP na criação de novas propostas?

Aconselho-a a ver os contributos que o PCP já deu a essa luta. Compreendo essa pergunta dado o interesse em acentuar algumas diferenças, mas o PCP, além de não se esconder, tem trabalho nesse campo. Foi o PCP que em 1999 apresentou o projeto que veio dar origem à consagração na lei de direitos para casais em união de facto. E o PCP votou favoravelmente o casamento entre pessoas do mesmo sexo. O PCP continua a luta pela concretização da Educação Sexual na escola, lei que foi apresentada por nós, para que contribua para o respeito das opções sexuais de cada um e contribua assim para a formação de todos nós.

Às vezes a memória é curta, mas somente porque é seletiva. Ao PCP não podem acusar de não ter estado do lado certo. Aliás, o PCP, quando apresenta propostas diversas nos vários planos da vida pela igualdade no trabalho, no acesso à habitação, à saúde ou à cultura, está também a lutar com as pessoas LGBT, uma vez que a sua luta é a luta de todos os trabalhadores, é a luta de todos aqueles que querem ser plenamente livres.

"Cabe ao povo afegão resolver a situação que tem pela frente, sem ingerências"

Em questões de política internacional, António Azevedo mantém-se fiel à linha tradicional do PCP, criticando "40 anos de ingerência e agressão e 20 anos de ocupação" do Afeganistão pelos EUA e "seus aliados", isto "a pretexto de um falso combate ao terrorismo". Quanto às manifestações contra o regime cubano, aponta para o "bloqueio económico", a "tentativa de desestabilização", o "cerco mediático" e outras causas com origem nos EUA.

Tendo em conta a posição do PCP face à situação do Afeganistão, considera que o povo afegão ficou melhor depois da retirada dos EUA? Que está melhor sob a liderança dos taliban?

Se o ponto de partida da pergunta tem em conta a posição do PCP então deverá ser feita à volta da mesma e não colocando pressupostos que nela não estão contidas. A posição do PCP afirma aquilo que os mais recentes acontecimentos confirmam: o que se passa no Afeganistão é consequência de 40 anos de ingerência e agressão e 20 anos de ocupação por parte dos EUA e seus aliados e de apoio ativo de forças retrógradas e obscurantistas a pretexto de um falso combate ao terrorismo. Neste grave momento, cabe ao povo afegão resolver a situação que tem pela frente, sem ingerências que levaram ao que hoje encontramos, e tome o seu caminho livremente.

"Pátria e vida", "Abaixo a ditadura", "Nós não temos medo", estas têm sido algumas das palavras de ordem proferidas nas manifestações contra o regime cubano. O que pensa sobre a situação em Cuba?

A situação de Cuba não pode ser simplificada. Cuba está neste momento a ser alvo de mais uma tentativa de desestabilização que não é nova. Tivemos até a oportunidade de ver um comentador da SIC Noticias a admitir isso mesmo com a maior das leviandades, ao dizer que existem elementos da CIA dentro de Cuba.

Cuba passa objetivamente por dificuldades, cuja origem é o bloqueio económico que já dura há 60 anos. Falamos de um país que se encontra a resistir heroicamente a um criminoso bloqueio que, na prática, quase toda a comunidade internacional condena e pede para ser levantado, porque os impactos são notórios. Falamos de um bloqueio que priva o povo cubano de ter as mais pequenas coisas como seringas para administrar as vacinas contra a Covid-19, por exemplo, apesar de ter conseguido desenvolver uma vacina própria, mas que também priva o povo cubano de outros utensílios e ferramentas que consideramos naturais no nosso país. Veja-se que os EUA aplicam sanções às empresas que negoceiam com o Estado cubano e isso não é pouco.

O que se passa agora em Cuba é o mesmo que se passa com a generalidade dos países: a pandemia veio ampliar dificuldades e, no caso cubano, com o bloqueio, as dificuldades ficaram gigantes. O povo cubano sente na pele os efeitos do bloqueio. Os EUA tentaram instrumentalizar descontentamentos com problemas que eles próprios provocaram. Com esse objectivo, montaram o cerco mediático em volta de Cuba, tentaram pôr em causa a soberania de Cuba e procuram dar lições de democracia, quando deixam a sua moral em cada invasão e a cada bombardeamento. Mas o povo cubano resistiu mais uma vez com impressionantes mobilizações de rua que nunca passaram nos noticiários ou jornais. O povo cubano, dia após dia, demonstrou estar do lado da revolução e na luta pela defesa da soberania.

Devo dizer que registo que a atenção dada a Cuba é inversamente proporcional à que é  dada aos massacres de que o povo palestiniano é alvo, à violência na Colômbia que mata mensalmente dezenas de dirigente sindicais e ativistas sociais, às tentativas de golpe tanto na Bolívia como no Peru. Gostaria até de ver o questionamento da democracia nos EUA, quando há assassinatos por via de asfixiamento em plena luz do dia por questões raciais. Tanto se fala de Cuba, mas é aqui na Europa que é comum a utilização de balas de borracha e canhões de água para dispersar manifestações.

E qual é o papel dos Estados Unidos na origem das reivindicações? Falamos de culpa partilhada entre os EUA e Cuba? Ou só EUA?

Certamente não foi o povo cubano a colocar um bloqueio económico a si mesmo. Penso que na minha resposta anterior ficou bem claro o papel dos EUA nos problemas de Cuba. Fica bem claro que podem mudar as administrações à vontade que os interesses continuam os mesmos. Veja-se a linha de atuação e de desestabilização nos vários países da América Latina e veja-se como são tão semelhantes. Apesar de todos os ataques, podemos dizer que milhões de crianças adormecem todos os dias com fome e, graças aos avanços conseguidos pela Revolução Cubana, nenhuma dessas crianças é cubana. Isso não é coisa pouca.

Se "o povo é quem mais ordena", então quando é que há, no seu entender, legitimidade para silenciar o povo? E porquê?

Terá certamente que perguntar a quem defende o seu silenciamento. O PCP, ao longo dos seus 100 anos, lutou sempre para que o povo se pudesse fazer ouvir e tem provas dadas nesse sentido. A sua pergunta lembra-me Adriano Correia de Oliveira em "Tão Forte Sopra o Vento" que cantava que "ninguém pode calar a voz da liberdade" e, mais à frente, complementava cantando "ninguém pode vencer um povo que resiste".

Questionário de Proust

"A pessoa viva que mais admiro são os meus camaradas"

"Não vou responder"; "acho que isso não tem grande relevância para a entrevista"; "a isso também não vou responder". Cumprindo a tradição institucionalizada pelo ex-líder comunista Álvaro Cunhal, conhecido por não falar sobre questões de natureza pessoal, António Azevedo recusa-se a responder a algumas perguntas do conhecido questionário de Proust. Ainda assim, revela que quem mais admira são todos os seus "camaradas" e não hesita em destacar Ary dos Santos como poeta de eleição.

Qual é o seu principal defeito?

Não vou responder.

E a sua principal virtude?

Igual. Também não vou responder.

O que é que mais aprecia num amigo?

Eu acho que isso também não tem grande relevância para a entrevista.

Qual é a pessoa viva que mais admira?

São todos os meus camaradas.

E a que mais despreza?

Acho que também não vou responder a isso.

O que é que mais gosta de fazer?

Não faço mesmo ideia...

Um escritor de prosa…

Saramago.

E um poeta?

Ary dos Santos.

Diga uma palavra – ou frase – que usa com muita frequência.

"Camarada".

Lema de vida

Honestamente não sei...

Um país para viver…

Portugal. Gosto bastante.

E uma flor para plantar...

Um cravo.

Que talento não tem e gostaria de ter?

Nem sequer sei... isso acho que é daquelas questões a que também não responderei.

E extravagâncias? Tem?

Acho que não.

O que é que gostaria de ser?

Não sei... essa pergunta é mesmo muito profunda. Não faço ideia. Eu sou o que a vida me proporciona ser.

E o que é que não gostaria de ser?

Uma muito má pessoa.

Algum pintor de eleição?

Ah... posso dizer coisas que gosto de ver. Gosto muito dos desenhos do Álvaro.

Uma personagem histórica que odeie.

Epá... isso é também muito difícil. Acho que há muitas. O problema é que depois começava a particularizar...

Como gostava de morrer?

Bem, nunca pensei nisso... mas pelo menos com dignidade.

E o seu estado de espírito atual?

Confiança.

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