Desde o momento em que anunciaram as respetivas candidaturas à Presidência da República, Ana Gomes e Marisa Matias têm sido alvo de publicações nas redes sociais com mensagens boçais, insultuosas, machistas e misóginas. Também encontramos injúrias relacionadas com as ideias e políticas que defendem (neste caso, o mesmo se aplica aos outros cinco candidatos, todos homens), mas num grande volume de publicações coloca-se o enfoque sobretudo em características físicas das duas mulheres candidatas, assim desrespeitadas por causa do sexo biológico com que nasceram e do género feminino que representam na sociedade.

“Não está muito bem em termos de imagem e performance. (…) Assim com os lábios muito vermelhos, como se fosse uma coisa de brincar”, afirmou André Ventura, referindo-se a Marisa Matias, ao discursar num comício da campanha eleitoral, no dia 14 de janeiro. Esta declaração do candidato do partido Chega motivou uma onda de solidariedade com a visada, homens e mulheres a pintarem os lábios de vermelho, incluindo a adversária Ana Gomes que gravou um vídeo do gesto simbólico, publicado no Twitter. Em sentido inverso, porém, intensificou as publicações machistas e misóginas contra as mulheres que se candidatam ao Palácio de Belém.

O Polígrafo recolheu uma série de exemplos dessas publicações e falou com as duas candidatas. Ana Gomes, em tom descontraído, sublinha que já está habituada às comparações físicas com o humorista Herman José. O problema? “Há muitos grunhos”.

“Estou habituada. Eu própria retweetei um delicioso vídeo de um encontro que tive com o Herman José e tenho muito gosto de me associar a ele. Não considero que seja sinal de que Portugal não está preparado para ver uma mulher na Presidência da República. Acho que há muitos grunhos. Mas, felizmente, a reação saudável de tanta gente jovem mostra que estamos a evoluir e, portanto, não tiro daí nenhumas consequências”, afirma a diplomata de carreira e antiga eurodeputada.

Por seu lado, Marisa Matias também diz estar “habituada a ser sistematicamente atacada nas redes sociais e a que esses comentários passem pelo corpo, pela maquilhagem, (…) por tudo”. Mas isso não significa conformismo. “Ou seja, eu não estou habituada a ter da parte de quem faz este tipo de discurso e de ataque algum debate de ideias. Isso não existe”. De resto, a candidata apoiada pelo Bloco de Esquerda considera que os comentários insultuosos “dizem muito mais sobre quem os faz do que sobre as mulheres”.

Na sequência da declaração de André Ventura, como que verbalizando algo que já circulava diariamente nas redes sociais, gerou-se também uma onda de solidariedade em torno da candidata, a partir de vários quadrantes sociais e políticos, cuja dimensão estava longe de prever.

“Acho que está já mais enraizado na nossa sociedade esta ideia fundamental da igualdade que é ‘se mexeu com uma mexeu com todas’. E o que foi um insulto claramente direcionado e com um alvo muito claro, que era eu, na realidade foi entendido como deveria ter sido entendido - um insulto a todas as mulheres”, destaca Marisa Matias.

Eu fui surpreendida. Estávamos na carrinha, a nossa bolhinha de campanha, e fui eu que chamei a atenção para o que estava a acontecer. Este movimento significa que de facto continua, e agora até com mais visibilidade, a haver muito ódio por parte de alguns homens a mulheres na política. Não é um exclusivo da política, infelizmente, mas na política é mais visível”, afirma a eurodeputada bloquista.

“Mas eu acho que este movimento também mostra o quanto avançámos. Se calhar há duas décadas, há uma década não teria sido assim. Acho que está já mais enraizado na nossa sociedade esta ideia fundamental da igualdade que é ‘se mexeu com uma mexeu com todas’. E o que foi um insulto claramente direcionado e com um alvo muito claro, que era eu, na realidade foi entendido como deveria ter sido entendido - um insulto a todas as mulheres”, enaltece.

Quanto a Ana Gomes, aponta no mesmo sentido: “É de salutar que tanta gente, homens e mulheres, em particular jovens, reajam e reajam salutarmente contra insultos e uma campanha machista e inaceitável”.

“A minha Presidente” e outros telhados de vidro

Os sete candidatos ao Palácio de Belém - duas mulheres e cinco homens - já eram conhecidos quando a Comissão Nacional de Eleições (CNE) lançou uma campanha institucional polémica: um incentivo ao voto exclusivamente no masculino, através de frases como “É o meu presidente”, “Também é meu” ou “É nosso”.

Questionada pelo Polígrafo, a CNE respondeu que a campanha se refere “exclusivamente aos órgãos que, em cada um dos atos eleitorais, estejam em causa e não a quem seja seu titular ou se candidate a sê-lo”. Segundo fonte oficial da CNE, a campanha em questão “é destinada ‘ao esclarecimento objetivo dos cidadãos sobre o significado das eleições para a vida do país, sobre o processo eleitoral e sobre o modo de cada eleitor votar’”, não querendo isso dizer que “a forma pela qual se pretendeu sublinhar que o órgão Presidente da República é de todos e representa todos os portugueses de modo a permitir a diversidade de imagens não seja mais suscetível do que outras de proporcionar leituras variadas”.

Considera ser aceitável que uma campanha institucional da CNE não utilize linguagem inclusiva e associe a Presidência da República ao género masculino? “Acho que não. Acho que é um sinal de como a linguagem sexista está ainda muito emprenhada até nas práticas da Administração Pública. Ao arrepio do que dita a própria legislação e o espírito que resulta da Constituição e que resulta da própria legislação europeia. No entanto, não desvalorizo que isto é um combate também político, cultural e que implica a vigilância e o empenhamento de todas e de todos”, defende Ana Gomes.

Marisa Matias considera que “há um caminho grande a fazer aí. Estas eleições não são excepção, infelizmente, e temos um caminho grande também num cenário mais paritário e mais igualitário, não só no exercício das funções dos altos cargos, mas também na própria disputa desses lugares. A linguagem institucional conta, os símbolos contam. Cantar ‘a Grândola’ não é igual a cantar ‘o Hino da Mocidade Portuguesa’. Portanto, se simbolicamente se continua a ter uma linguagem que não é inclusiva, uma imagem que não é inclusiva, parece que somos sempre convidadas no espaço dos outros, quando o espaço é tão nosso como dos outros”.

Contra o sexismo, o machismo e a misoginia, Ana Gomes e Marisa Matias percorrem lado a lado aquilo que acreditam ser um caminho longo, mas possível.

“Eu penso que justamente aqueles que reagem, mas dando a volta por cima com humor, como estão a fazer as pessoas na campanha do #vermelhoembelem, tal como eu também fiz relativamente aos que procuram associar-me a Herman José com intuitos pejorativos, são também uma forma de responder a essa tentativa de degradação do debate político. Nós não damos para esse peditório, nós queremos elevar o debate político”, assegura a socialista.

“Se calhar sou uma optimista incorrigível, mas prefiro acreditar que alguns passos foram dados seguramente para se ter sobreposto a solidariedade, quando ainda temos tanto, mas tanto para fazer”, conclui a bloquista.

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