Endorsement” é uma das palavras com mais peso - e mais ditas - durante a campanha eleitoral norte-americana e 2020 não é a excepção. Em plena corrida à Casa Branca, os apoios públicos - endossamentos - são uma das principais “armas políticas” dos candidatos, uma maneira de cativar o eleitorado, e também uma forma de posicionamento para quem se expõe e toma partido. 

A menos de um mês das eleições presidenciais de 3 de novembro, os apoios aos candidatos são um dos temas que mais originam informações enganadoras nas redes sociais, como é o caso de uma alegação de que organizações extremistas como os talibãs e o Ku Klux Klan (KKK) endossaram o atual presidente dos EUA, Donald Trump, enquanto o candidato democrata, Joe Biden, teria recebido o apoio do conceituado jornal científico New England Journal of Medicine. 

Tudo começou, como explica a plataforma de fact-checking “Snopes”, numa mensagem partilhada no Twitter, a 11 de outubro, por Bess Kalb, escritora e roteirista do programa Jimmy Kimmel Live!, que chegou às mais de 86 mil partilhas. “Esta eleição é uma decisão difícil pois um candidato foi endossado quer pelos talibãs, quer pelo KKK, e o outro por uma larga coligação bipartidária e pela New England Journal of Medicine”, escreveu, com alguma ironia, ainda que sem referir diretamente o nome de nenhum dos envolvidos. Porém, a mensagem acaba por usar factos verdadeiros que estão descontextualizados

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Donald Trump foi endossado pelos talibãs?

Já este mês, a “CBS News” noticiou ter falado com Zabihullah Mujahid, porta-voz dos talibãs, e que este teria assumido que o grupo extremista acreditava na reeleição do atual presidente dos EUA. Na entrevista exclusiva via telefone, Mujahid teria mesmo dito que Trump provou “ser um político que cumpre as principais promessas que fez ao povo americano”. 

Outro líder da organização terrorista afegã, sob anonimato, teria manifestado o mesmo desejo de vitória do candidato republicano e também que este “acabe com a presença militar no Afeganistão”. Em fevereiro de 2020, os EUA assinaram um acordo com os talibãs, com o objetivo de acabar com 18 anos de guerra. O Chefe de Estado norte-americano comprometeu-se a retirar as tropas num prazo de 14 meses, se a organização extremista mantiver a promessa de conseguir que outros grupos armados não atentem contra interesses norte-americanos e forças aliadas. 

As declarações foram desmentidas pelo próprio porta-voz talibã numa publicação no Twitter, na qual este disse que a “CBS News” tinha “interpretado incorretamente” as suas declarações e que nada acontecera como tinha sido publicado. 

Zabihullah Mujahid

A par do desmentido talibã, também Trump fez questão de recusar o suposto endossamento. “Os talibã têm de saber que o presidente irá sempre proteger os interesses norte-americanos custe o que custar”, disse o porta-voz da campanha do líder da Casa Branca, Tim Murtaugh. 

Na mesma rede social, Murtaugh acusou Biden de não ter a mesma postura de defesa dos interesses do país e seus cidadãos, por alegadamente se opor à “retirada de Osama bin Laden e Qassem Soleimani”, referindo-se ao arquiteto dos atentados de 11 de setembro de 2001 capturado e eliminado durante a administração de Barack Obama e ao comandante da força de elite iraniana Al-Quds morto num ataque aéreo por ordem de Trump, respetivamente.

Tweet campanha Trump

O presidente dos EUA e a relação com os supremacistas brancos 

Foi durante a campanha eleitoral para as presidenciais de 2016, que o KKK anunciou o seu apoio a Donald Trump, publicando uma fotografia do então candidato republicano na primeira página do "The Crusader", a publicação do mais antigo grupo racista que defende a supremacia branca nos EUA.  

Numa entrevista à “MSNBC”, Trump garantiu ter repudiado o ex-líder do KKK David Duke e que a sua campanha rejeitara o endossamento, ao emitir um comunicado em que dizia “denunciar qualquer forma de ódio” e onde se adjetivava a publicação dos racistas como “repulsiva”. 

A questão do apoio do KKK foi sempre abordada ao longo da presidência de Trump, como aconteceu em janeiro deste ano: uma foto manipulada, segundo explica o “Snopes”, garantia mostrar elementos do grupo racista marchando atrás de um cartaz de apoio ao presidente dos EUA e ao vice-presidente, Mike Pence. A verificação feita pela plataforma norte-americana demonstrou que a faixa nada tinha que ver com a administração da Casa Branca e que dizia “Cavaleiros Brancos Fraternos do Ku Klux Klan”. 

David Duke expressou apoio a Trump em mais do que uma ocasião, como aconteceu na manifestação supremacista branca “Unite The Right” em Charlottesville, Virgínia, a 12 de agosto de 2017. Uma mulher morreu atropelada quando um nacionalista abalroou a multidão com um carro. Na altura, o líder da Casa Branca defendeu que existia "boa gente" dos dois lados, referindo-se aos supremacistas brancos e aos contra-manifestantes. 

No primeiro debate para as eleições de 3 de novembro, o atual presidente dos EUA recusou-se a condenar os supremacistas brancos e membros de milícias espalhados pelo país. "Quase tudo o que vejo vem da ala esquerda e não da ala direita", respondeu, depois de questionado pelo apresentador da "Fox News" e moderador do frente a frente, Chris Wallace.

O governante republicano pediu ainda ao grupo de extrema-direita Proud Boys que “se afaste” e fique “à espera”, em stand by. “Alguém tem de fazer alguma coisa por causa dos antifa [antifascistas] e da esquerda”, disse o Presidente norte-americano.

O papel da ciência na campanha eleitoral

O "New England Journal of Medicine" tomou uma posição sem precedentes quando num editorial, publicado a 8 de outubro, instou os eleitores a julgar os atuais líderes políticos, considerando que estes foram “perigosamente incompetentes” a lidar com a pandemia de Covid-19. 

Porém, como explica o “Snopes”, a coluna não mencionava explicitamente Trump, nem reconhecia Biden como o candidato a ser votado. O texto centrou-se nas críticas aos líderes da nação e ao governo federal, acusado de preterir a experiência da ciência e apostar em “‘líderes de opinião’ desinformados e charlatões que obscurecem a verdade e facilitam a promulgação de mentiras descaradas”. As autoridades políticas foram igualmente acusadas de polarizar e politizar ainda mais os norte-americanos, ao mesmo tempo que privavam as comunidades vulneráveis dos seus direitos e não davam o apoio necessário aos profissionais de saúde que “colocaram as suas vidas em risco”. 

Mais direto foi o editorial publicado pela revista num texto publicado a 1 de outubro. “Nunca apoiamos um candidato presidencial em 175 anos de história - até agora”, lê-se no início do texto, onde se critica igualmente a resposta à pandemia provocada pelo novo coronavírus e a rejeição de Trump aos factos científicos.

Scientific American,

“As evidências e a ciência mostram que Donald Trump prejudicou gravemente os EUA e o seu povo - porque rejeita as evidências e a ciência. O exemplo mais devastador é a sua resposta desonesta e inapta à pandemia de Covid-19, que custou a vida de mais de 190 mil norte-americanos até meados de setembro”, escreveram os editores da revista científica, que fazem um claro endossamento ao candidato democrata: “É por isso que pedimos que vote em Joe Biden, que oferece planos baseados em factos para proteger a nossa saúde, economia e meio ambiente.”

Quem apoia quem?

Bess Kalb fala, no seu tweet, de uma larga coligação bipartidária que apoia a candidatura do antigo vice-presidente dos EUA, sem referir nomes. No entanto, como acontece com a maioria dos políticos, a maioria dos apoios é partidária. A lista de Biden inclui grupos ativistas de apoio aos LGBTQ, a causas ambientais, aos direitos animais, aos direitos reprodutivos das mulheres e sindicados que representam indústrias de todo o país. Jornais como o "The Washigton Post", "The New York Times" e "The Boston Globe" já anunciaram publicamente o seu apoio a Biden.

Já Donald Trump tem recebido o apoio de organizações religiosas, policiais e grupos pró-vida. O "The Boston Herald" e o "The Tulsa Beacon" foram algumas das publicações que defenderam o voto no atual presidente dos EUA. 

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