Ontem à noite, no Polígrafo SIC, o programa que o Polígrafo produz em parceria com a SIC, um dos temas abordados foi um invulgar episódio ocorrido na linha do Polígrafo no WhatsApp: no passado dia 4 de Maio, em plena crise dos professores, recebemos dezenas de pedidos de verificação num curtíssimo espaço de tempo. Até aí nada de novo. O que surpreendia era que o texto das solicitações era exatamente igual: “É verdade que o PS votou a favor de uma resolução pela contabilização do tempo integral de serviço dos professores e agora o Primeiro-Ministro ameaça demitir-se pela mesma razão?”

Decidimos saber quem eram estas pessoas claramente articuladas. Contactámo-las e rapidamente percebemos que se tratava de um conjunto de militantes do PSD e da JDS que se organizaram no sentido de influenciar o Polígrafo a fazer um fact-check cuja resposta já conheciam: de facto, o PS votara a favor da dita resolução. O objetivo do grupo de militantes era óbvio: persuadir o Polígrafo a fazer a verificação da informação em causa, e depois partilhá-la através dos seus próprios meios, já com a chancela de credibilidade e de independência conferida pelo facto de se tratar de um texto jornalístico.

Aqui chegados, é importante sublinhar três ideias:

  1. O que este grupo de pessoas fez não é ilegal ou, sequer, ilegítimo. Limitaram-se a utilizar um meio ao seu dispor, como milhares de outras pessoas já o fizeram desde que o Polígrafo foi lançado. Aliás, o fact-check solicitado, por ser pertinente, foi realizado, e os autores do pedido foram disso notificados, como sempre sucede com os que nos fazem solicitações do mesmo género;
  2. Comparar esta estratégia com outras, nomeadamente aquela que no passado sábado foi exposta pelo Diário de Notícias – e que resultou ontem na demissão do social-democrata Rodrigo Gonçalves, o seu alegado mentor – é um exercício de desonestidade intelectual que nos recusamos a fazer. Aqui não se fala da criação de perfis falsos para denegrir quem quer que seja, da divulgação de informação duvidosa ou do lançamento de vendettas dirigidas aos críticos do PSD na comunicação social. Trata-se, é verdade, de um esquema para influenciar um órgão de comunicação social. Em bom português, tratou-se de uma chico-espertice comparável à que em tempos se fazia com os fóruns radiofónicos sobre política, em que os partidos destacavam dezenas de militantes para entupirem a linha telefónica de modo a preencher o tempo de antena com ideias que iam ao encontro das suas;
  3. Também é importante salientar que nenhuma das pessoas contactadas pelo Polígrafo escondeu a sua identidade. À exceção de um caso em que a ligação foi abruptamente interrompida, todos revelaram tranquilamente quem eram e confirmaram a sua ligação partidária. Sabiam que não estavam a cometer uma ilegalidade.

Assim sendo, se tudo foi legal e transparente, porque é que isto é notícia? Por um motivo básico: a fórmula que este grupo de pessoas escolheu para se mobilizar é um sinal dos tempos que vivemos, tempos estranhos em que quem ganha eleições não é necessariamente quem defende as melhores ideias, mas quem domina melhor as novas tecnologias. Hoje, através de ferramentas como o WhatsApp, é possível condicionar os resultados de uma eleição.

No Brasil, o WhatsApp foi crucial para a vitória de Jair Bolsonaro nas eleições. O país tem cerca de 130 milhões de utilizadores desta aplicação móvel – e destes, 44% são eleitores ativos. Também na Índia, onde decorrem eleições neste momento, o efeito do WhatsApp é esmagador, tendo já inclusivamente sido linchadas pessoas em público por causa de rumores espalhados através desse meio. Falamos, por isso, de um instrumento poderoso que, tal como o Facebook, foi criado por um motivo aparentemente bondoso – aproximar as pessoas através da tecnologia –, mas que entretanto foi apropriado por forças organizadas que não ligam a meios para atingir fins.

Não é, naturalmente, o caso dos militantes do PSD que foram identificados no nosso trabalho, que até prova em contrário são pessoas de bem. Mas fica o alerta: o tempo em que o WhatsApp era, em Portugal, uma ferramenta inocente para trocar mensagens já lá vai. Subimos um degrau. O que me preocupa não é o que aconteceu no Polígrafo - é o facto de, mais tarde ou mais cedo, ser inevitável pular, também entre nós, para o degrau seguinte: aquele em que a linha é utilizada não para fazer solicitações que, apesar de tudo, são legítimas, mas para passar informações susceptíveis de intoxicar a população e de, com isso, se transformarem numa ameaça à democracia. Neste momento, já não se trata de saber se isso vai acontecer - resta-nos apenas esperar pelo dia em que inevitavelmente acontecerá.

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