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Meia dúzia de rumores, mentiras ou “fake news” sobre o Mundial de Futebol no Qatar

Este artigo tem mais de um ano
Adepto que invadiu relvado no Portugal-Uruguai tinha tatuado símbolo do "Batalhão Azov"? Árbitro do jogo Marrocos-Portugal tem origem marroquina? Luis Enrique comentou em direto que "ela ficou com tesão, com certeza"? Uma série de histórias falsas sobre o Mundial do Qatar, envolvendo a organização do evento, treinadores, jogadores, árbitros e adeptos.

A “Maldita.es”, plataforma espanhola de verificação de factos, compilou mais de três dezenas de histórias falsas divulgadas a propósito do Campeonato Mundial de Futebol que termina hoje no Qatar. Destacamos algumas das mais virais.

 

Luis Enrique comentou em direto que “ela ficou com tesão, com certeza”?

Durante a competição, Luis Enrique, selecionador de Espanha, manteve, a partir do Qatar, comunicação direta com o público através de uma plataforma de streaming (Twitch), mais propriamente do programa/stream “luisenrique21“, transmitido às 22 horas (de Espanha) de quase todos os dias entre 18 de novembro e 5 de dezembro.

Foi sobre uma dessas sessões (a 29 de novembro) que surgiu uma informação falsa, com grande impacto. No mesmo dia, o programa radiofónico espanhol com maior audiência, “El Partidazo de COPE” (da Cadena COPE), divulgou um trecho do stream (em áudio) em que Luis Enrique conversava com o psicólogo da seleção (Joaquín Valdés), respondendo às questões colocadas, em chat, pelos internautas.

A dada passo, um deles pergunta, em tom humorado, como acalmar a sua mulher (Maria), agitada por causa do Mundial de Futebol. O psicólogo dirige então uma mensagem a esta mulher supostamente nervosa, com uma voz muito calma. Logo a seguir à intervenção de Joaquín Valdés, e a terminar a reprodução realizada pela Cadena COPE, surge o comentário de Luis Enrique: “Ela ficou com tesão, com certeza.”

No entanto, trata-se de uma truncagem. O que, na verdade, o selecionador espanhol disse foi: “Ela está relaxadíssima, adormeceu”. Quanto à frase polémica reproduzida foi, de facto, proferida por Luis Enrique, mas 4,15 minutos depois e noutro contexto: estava apenas a ler o comentário de um internauta e não a emitir a sua apreciação. O logro foi, posteriormente desconstruído, e o apresentador do “El Partidazo de COPE” pediu publicamente desculpas (nas redes sociais do programa).

 

Árbitro do jogo Marrocos-Portugal tem origem marroquina e arbitrou também o Marrocos-Espanha?

A arbitragem do Marrocos-Portugal, que ditou a eliminação de Portugal do Mundial, foi bastante contestada pelos portugueses. A nacionalidade (argentina) do árbitro Facundo Tello mereceu críticas de jogadores e adeptos, pelo facto de a “seleção das pampas” ser uma das candidatas à presença na final e assim poder beneficiar indiretamente de decisões daquele árbitro.

Mas foram alguns utilizadores espanhóis de redes sociais, a partir do dia seguinte ao afastamento de Portugal, que acabaram por tornar viral um boato, baseado em duas informações falsas. No dia 11 de dezembro, no TikTok, uma publicação com a fotografia de Facundo Tello garantia que este árbitro era de origem marroquina e que estava a arbitrar todos os jogos de Marrocos no Campeonato do Mundo. A documentar a publicação, a entrada na Wikipédia referente a Facundo Tello, filmada em poucos segundos, em que pode ler-se que o árbitro afinal nasceu em “Casablanca, morilândia”.

Uma observação mais atenta através das ferramentas de pesquisa do Google permite perceber que a página do árbitro na Wikipédia foi editada com dados falsos, em si mesmo contraditórios e que, pelo seu carácter opinativo, desde logo não conseguem ser credíveis.

Assim, na mesma edição daquela entrada da enciclopédia virtual, 1) é atribuída a nacionalidade marroquina a Facundo Tello; 2) é referido que é o seu primo de origem marroquina que está a arbitrar todos os jogos de Marrocos no Mundial; 3) é mencionado que Marrocos recebeu a sua ajuda no jogo com a Espanha.

A página já foi entretanto reeditada com os dados verdadeiros respeitantes a Facundo Tello, que nasceu mesmo na Argentina (Bahía Blanca, Buenos Aires) e não tem qualquer origem marroquina. Além disso, ao contrário do que é referido na publicação do TikTok e na edição fraudulenta da sua entrada na Wikipédia, não arbitrou o Marrocos-Espanha (o juiz dessa partida também é argentino, mas tratava-se de Fernando Rapallini) ou qualquer outro jogo da seleção do norte de África além daquele que a opôs a Portugal.

 

Jogador dos EUA mostrou camisola onde se lê que o verdadeiro nome do futebol é “soccer”?

Circulou nas redes sociais uma fotografia do influente jogador Christian Pulisic a levantar a parte de cima do equipamento da seleção dos Estados Unidos da América (EUA) que envergava durante um jogo, para que pudesse ser lido o que trazia escrito na sua camisola interior: “It’s called soccer!”. Este gesto foi referenciado como tendo ocorrido no Mundial do Qatar.

Porém, trata-se de uma manipulação. A mensagem que Pulisic mostrou foi “Man in the mirror” (Homem ao espelho), com o sentido de cada um de nós poder contribuir para melhorar o mundo, e escolheu transmiti-la a 13 de novembro 2021, após marcar o primeiro golo no jogo em que a sua seleção derrotou o México por 2-0, na fase de qualificação do continente americano para o Mundial de 2022 (e não na fase final, disputada em 2022).

 

Adepta inglesa que levanta a camisola e mostra os seios estava no Mundial do Qatar?

Um dia depois do início do mundial de futebol, tornou-se viral um vídeo que mostra uma adepta inglesa, numas escadas rolantes, a levantar a camisola da sua seleção e a mostrar os seios. A legenda dessa imagens era impressiva: “Imagens prévias da primeira mulher detida no Qatar.”

No entanto, a imputação é falsa. Não houve qualquer detenção, visto que o sucedido ocorreu em 2021, provavelmente aquando da final do Campeonato da Europa, entre Inglaterra e Itália, em Londres, sendo certo que as imagens circulam na internet desde o dia 11 de julho de 2021 (data da final).

 

Real Madrid incluiu Mbappé como seu jogador na lista de atletas madridistas do França-Polónia?

O desejo do Real Madrid contratar Kylian Mbappé ao PSG tem já alguns anos, sendo uma hipótese avançada em diversos mercados de transferências, sempre gorada, embora com o reconhecimento das partes da existência de negociações.

Em cada jogo deste Mundial onde participaram jogadores do Real Madrid, o Twitter do clube espanhol assinalou o facto, colocando os respetivos nomes em baixo da menção escrita da partida de futebol. Ora, nas redes sociais, tornou-se viral a captura de imagem de um alegado tweet relativo ao França-Polónia, dos oitavos-de-final, em que estavam escritos estes nomes:

@atchouameni

@Camavinga

@KMbappe

Os dois primeiros jogam efetivamente no atual campeão europeu, mas Mbappé não, o que tornou polémica esta imagem, multiplicando a sua partilha. Quem a publicou alega que o tweet foi apagado pelo clube, depois deste se aperceber da gaffe que cometera.

Porém, as ferramentas de recuperação de publicações apagadas não encontram qualquer tweet igual ao que está na conta do Real Madrid mas com o acrescento do nome do avançado do PSG. Além disso, a captura de imagem da publicação viral apresenta exatamente a mesma hora do tweet que está na conta do clube espanhol, o que torna inverosímil que, no mesmo minuto, tenha havido uma publicação, seguida de uma correção, tudo isso sob a observação do internauta que, no mesmo momento, fazia a captura de ecrã.

É assim muito provável que se trate de uma manipulação de imagem, que coloque o nome de Mbappé a seguir ao dos seus dois colegas de seleção que jogam, efetivamente, no Real Madrid.

 

Adepto que invadiu relvado no Portugal-Uruguai tinha tatuado símbolo do “Batalhão Azov”?

O Portugal-Uruguai relativo à segunda jornada da fase de grupos do Mundial, no dia 28 de novembro, foi interrompido aos 51 minutos: um adepto transportando a bandeira LGBT, proibida no Qatar, invadiu o relvado.

Seguidamente, nas redes sociais, foi mostrada a imagem (com recurso ao zoom) do braço tatuado daquele adepto (o italiano Mario Ferri Falco) e difundida a informação de que se tratava do símbolo do “Batalhão Azov”, com comentários que desvalorizavam o seu gesto pela contradição que encerrava aquela tatuagem com os valores que tinha pretendido defender.

Porém, atento o símbolo, verifica-se que não é o do Batalhã Azov, mas antes o brasão da Ucrânia, constituinte da heráldica daquele país. A imagem da publicação não foi manipulada, mas a informação que a enquadra é falsa.

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