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Cheias e chuva intensa. Alterações climáticas ou evento normal desta época do ano?

Este artigo tem mais de um ano
Voltou a acontecer. Menos de uma semana depois de as cheias marcarem a noite de quarta-feira para quinta-feira (7 e 8 de dezembro) na capital, esta terça-feira os portugueses voltaram a acordar com notícias de grandes inundações em Lisboa, mas também noutras zonas do país. O presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Carlos Moedas, relacionou as cheias com as alterações climáticas. E não foi o único.

Nas redes sociais as opiniões dividem-se entre quem alerta para as alterações climáticas e quem afirma que “agora a culpa é sempre das alterações climáticas”. Entre os dirigentes políticos, várias vozes defendem que as cheias que se fizeram notar na última semana são resultado das alterações climáticas.

O presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Carlos Moedas, reforçou-o diversas vezes ao longo dos últimos dias. Após as cheias de dia 7 de dezembro, dizia o autarca em declarações à imprensa que “as mudanças climáticas levam-nos a acreditar que estas mudanças são terríveis. Temos de lutar para mudar esta situação e foi por isso que hoje [quarta-feira] aprovámos na Assembleia Municipal todo o orçamento que vai permitir fazer os grandes túneis de drenagem”.

Também Rui Tavares do Livre recordou através do Twitter, após as cheias de dia 7 de dezembro, que “os últimos anos temos assistido com cada vez mais frequência a este tipo de situações, frequência essa que é um dos resultados previsíveis das alterações climáticas. Previsíveis são também as consequências muito sérias que estas podem ter para a nossa cidade”.

E ainda Inês Sousa Real, do PAN, afirmou que os “fenómenos climatéricos extremos vão ter lugar com cada vez mais frequência e com consequências como a que ontem [7 de dezembro] vimos em Lisboa ou Faro. A preservação das florestas, das zonas húmidas, o adequado ordenamento territorial e preservação da orla costeira é imprescindível”.

Mas o fenómeno é recorrente e as ruas da capital inundadas não são propriamente novidade para os lisboetas. Recuando no tempo, desde as grandes cheias de 1967 – em que se estima que tenham morrido cerca de 700 pessoas e ainda milhares de desalojados – que não é raro o ano em que a capital não tenha visto imagens de cheias. A última que detinha o recorde havia sido em fevereiro de 2008, tendo até sido comparada à tragédia de 1967, como destaca o relatório do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA). 

Nesta terça-feira, dia 13 de dezembro, o IPMA anunciou, num relatório publicado no site, que foram batidos novos máximos de precipitação, sendo que a última vez que foram atingidos valores tão elevados foi em fevereiro de 2008.

O Polígrafo contactou o investigador e dirigente na divisão de Clima e Alterações Climáticas do IPMA, Ricardo Deus, que explicou o que está em causa. 

De acordo com o especialista “podemos olhar para esta situação de meteorologia da seguinte maneira: é facto que na cidade de Lisboa acontecem situações de precipitação intensa e muito forte em períodos muito curtos de tempo, este tipo de meteorologia é usual acontecer no nosso território. Isso é a variabilidade normal do clima. Acontece é que como estamos num clima diferente, podemos assumir que necessariamente mais quente e mais energético, estes fenómenos tendem a ser potencializados”. 

“Se olharmos para a história destes eventos em Lisboa, percebemos que os eventos mais recentes têm sido caracterizados por quantidade de água precipitada muito elevada. Os valores mais elevados que tinham sido registados foram em Lisboa, com valores bastante elevados, em fevereiro de 2008, portanto não foi assim há muito tempo”, indica Ricardo Deus.

É um facto que estes períodos de chuva intensa são normais para a época do ano e que as cheias vão manter-se na capital portuguesa enquanto não houver soluções eficazes implementadas – como o Plano de Drenagem de que se fala (e se promete) há vários anos – mas então o que é que é diferente nestas últimas ocorrências? Ricardo Deus explica, em resposta ao Polígrafo, que “fenómenos desta magnitude têm vindo a acontecer mais frequentemente nas últimas duas décadas. Isto é que nos leva a crer que há uma ligação destes fenómenos com este novo clima”. 

“A variabilidade do clima em Portugal tem estas características, acontece é que estamos num clima diferente e, portanto, estes fenómenos potencialmente serão muito mais intensos, muito mais fortes e muito mais rápidos que foi exatamente o que aconteceu no fenómeno de hoje. Este fenómeno mantém a mesma caracterização meteorológica, mas tem umas características diferentes em termos da sua intensidade e magnitude”, acrescenta. 

Estaremos assim numa espécie de clima tropical? “Não queria usar essa palavra porque não é um clima tropical, mas, pontualmente, tem alguns fenómenos que se assemelham e esta questão da precipitação intensa e em pouco tempo são características de um clima tropical”, assume o investigador. “Não é um clima tropical, mas nesta terminologia começa a ter algumas semelhanças”, conclui Ricardo Deus.

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