Desde que o ano começou, a palavra seca tem sido presença assídua nos jornais, televisões e rádios portugueses, já que o país atravessa a pior situação de seca de sempre. No entanto, o problema não afeta apenas Portugal e tudo indica que veio para durar. Segundo as Nações Unidas, mais de “2,3 milhares de milhões de pessoas já enfrentam stress hídrico” e “as previsões estimam que até 2050 as secas poderão afetar mais de três quartos da população mundial”.

No Dia Mundial do Combate à Seca e à Desertificação, o Polígrafo conversou com o diretor da Secção de Hidráulica Recursos Hídricos e Ambiente da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, Joaquim Poças Martins, e com o representante e membro do Conselho Geral da Zero – Associação Sistema Terrestre Sustentável, José Paulo Martins, para perceber quais os principais mitos relacionados com estes dois problemas, e reuniu-os em cinco perguntas e respostas.

1. Seca, escassez e desertificação são a mesma coisa?

Para Joaquim Poças Martins, é frequente pensar-se que a seca, a escassez de água e a desertificação “são a mesma coisa”, o que não corresponde à verdade. E o que distingue estes três conceitos?

Em primeiro lugar, tal como se pode ler no site da Organização das Nações Unidas, a seca é definida como “um período prolongado - uma estação, um ano ou vários anos - de chuvas deficientes em relação à média estatística de vários anos para uma região.”.

Por outro lado, a desertificação refere-se, segundo a ONU, “à degradação do solo em áreas áridas, semiáridas e subúmidas resultante de vários fatores, incluindo variações climáticas e atividades humanas”.

Quanto à escassez de água, Poças Martins explica que este conceito abarca a falta de água para determinado fim: “Por exemplo, no deserto do Saara não há escassez. Como não há pessoas nem utilização, não há escassez de água.”

2. Se houver água a sair da minha torneira é porque não há seca?

A seca não chega às torneiras em Portugal. Quem o assegura é Poças Martins. O engenheiro do Ambiente explica que, “mesmo que não chova, as pessoas têm água em casa, porque uma coisa é a água que chove e outra coisa é a água nos canos”.

“Hoje em dia, como a água nos canos está ligada ou a estações de tratamento e a sistemas muito bons feitos na década de 1990, mesmo que não chova durante muito tempo, as pessoas continuam a abrir a torneira em casa e têm água”, começa por explicar.

No mesmo plano, acrescenta o professor da FEUP, “a seca também não chega às prateleiras de supermercado, porque quem nos vende os alimentos compra-os com antecedência e, muitas vezes, a outros países, o que faz com que tenhamos oferta todo o ano”.

Assim sendo, defende, “as pessoas das cidades não sentem que há seca e continuam a gastar à vontade”. Por isso, “como as secas não chegam às cidades, às torneiras e aos supermercados, cria-se uma ilusão de abundância quando ela não existe”.

“Há uns anos, quando havia pouca gente no mundo e a economia era pequena, toda a gente usava a água e sobrava. No entanto, há uma regra que diz: a abundância usufrui-se, a escassez gere-se. Como, hoje em dia, a água já não é abundante, mas sim escassa, tem de ser gerida”.

3. A água não tem valor?

Apesar de a economia categorizar a água como um bem livre, ou seja, como um bem intangível, de livre acesso e que não possui valor, Poças Martins defende que, a partir do momento em que há escassez deste recurso, o caso muda de figura.

“Há uns anos, quando havia pouca gente no mundo e a economia era pequena, toda a gente usava a água e sobrava. No entanto, há uma regra que diz: a abundância usufrui-se, a escassez gere-se. Como, hoje em dia, a água já não é abundante, mas sim escassa, tem de ser gerida”, sustenta.

E como é que a economia resolve o problema do valor?, pergunta o especialista para responder logo depois à sua própria questão: “Atribuindo um preço que vai regularizar o consumo”.

4. Desertificação e despovoamento são sinónimos?

Outra confusão de conceitos frequente é a de que desertificação e despovoamento são sinónimos, tal como explica o ambientalista José Paulo Martins. Na verdade, enquanto a desertificação se refere à degradação do solo, o despovoamento diz respeito à diminuição do número de indivíduos que vivem numa dada região.

O representante da Zero lembra que “pode existir um deserto cheio de gente, porque se constrói lá uma cidade com condições (como é o caso de Las Vegas, uma cidade construída Mojave, em Nevada), bem como pode haver uma floresta tropical extremamente húmida e não viver lá ninguém”.

Ainda assim, José Paulo Martins sublinha que os dois conceitos, apesar de não serem sinónimos, podem influenciar-se, dado que “uma região que está a sofrer um processo físico de desertificação pode perder condições para suportar mais população se viver do setor primário”.

5. Vamos ter sempre água disponível graças ao ciclo hidrológico?

As crianças aprendem na escola que, devido à ação do Sol, a água evapora-se, o vapor de água condensa-se e depois formam-se nuvens e ocorre a precipitação. No entanto, tanto o professor da FEUP quanto o representante da Zero concordam que o ciclo da água não é uma garantia de que este recurso vai estar sempre disponível.

José Paulo Martins esclarece que “todos sabemos que a água evapora e depois cai”, mas que “não sabemos onde é que a água vai cair”. Por isso é que não basta uma zona ter muita água - por exemplo, em lagos, rios ou mares - para haver muita precipitação nessa região. O ambientalista lembra o caso de Cabo Verde que “está no meio de um mar tropical e é uma zona sequíssima”.

No mesmo plano, Poças Martins recorda que o ciclo hidrológico nem sempre põe a água “onde é preciso, porque a maior parte da água que chove é em cima do mar”. Além de que “também chove em sítios onde não mora ninguém, como a Sibéria”.

O especialista sublinha que “há sítios no mundo e em Portugal que não têm de se preocupar com água porque chove com  muita frequência”, nomeadamente no Luxemburgo “onde chove todos os dias um bocadinho”.

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Este artigo foi desenvolvido no âmbito do European Media and Information Fund, uma iniciativa da Fundação Calouste Gulbenkian financiada pela Google.

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